quarta-feira, 1 de julho de 2009

Identidades Falsas


A maioria de nós nasce e morre transitando por esta vida como se de um palco se tratasse. Porque somos todos actores, não só porque representamos papéis, mas porque usamos máscaras que nos transformam naquilo que queremos ou aprendemos a ser.

Desde o momento em que nascemos que estamos sujeitos ao processo de socialização, que muitas vezes se inicia no acto de cortar o cordão umbilical. A partir daí são-nos ensinados valores, códigos de conduta e aplicados castigos a comportamentos considerados desviantes pela sociedade. Quando nascemos, a nossa mente está vazia. Começamos a enchê-la com o que temos ao nosso redor, aprendemos e apreendemos aquilo que nos facultam, que será o que vigora na sociedade e na época em que vivemos. Mais tarde, quando começamos a ter capacidades para agir por conta própria, fazêmo-lo nos limites daquilo que nos é permitido, que aprendemos como sendo certo ou errado e enraizamos fortemente na nossa consciência.

Aquilo que somos hoje, não é mais que massa moldada na mesma forma onde o foram todos os membros da sociedade em que vivemos: a língua que falamos, o vestuário que vestimos, as leis a que obedecemos, etc.. Consoante o lugar e o tempo assim esta moldagem é mais ou menos rígida, mas o facto é que nos tormamos não naquilo que verdadeiramente somos, mas naquilo que a sociedade espera que sejamos, sob pena de sermos considerados marginais e de nos serem aplicadas medidas de coacção que variam desde a simples reprovação a penas de prisão.

Representamos diariamente papéis: somos pais, filhos, professores, alunos, jardineiros, economistas, compradores, vendedores, velhos, jovens... Todos estes papéis têm características comuns e únicas que os tornam perfeitamente definidos: todos os pais se comportam de determinada forma que não se coaduna com o comportamento dos seus filhos, ou mesmo deles próprios enquanto filhos, o mesmo acontecendo com os alunos e professores, com os velhos e com os jovens. É esperado que se actue de acordo com o papel que se detem e normalmente sabemo-lo de cor, pois levamos a vida a aprender como o representar.

Mas mais do que aprender comportamentos, aprendemos o conceito do certo e do errado, do bonito e do feio, do bom e do mau, do rude e do elegante, etc.. Moldamos a nossa consciência de forma a tornar-se parte de uma muito maior, a da sociedade como um todo. Deixamos de poder ser apenas um indivíduo para passar a ser uma célula de um corpo único, do qual fazem parte outros seres humanos. O que seríamos se fossemos nós próprios? Ou melhor, o que é ser nós próprios? Será que em alguma circunstância estivemos livres da influência do que aprendemos?

Porém, todo o ser humano existe individualmente. Existe algo que ainda se mantém intacto dentro dele: a sua identidade. O que acontece é que na maioria das vezes está adormecida, foi chutada para o fundo do nosso ser e é tão constantemente empurrada para dentro pelo nosso consciente que nos esquecemos de qual ela é. Pensamos até que somos aquilo que aparentamos ser, enganamo-nos a nós mesmos. Muitas vezes a nossa verdadeira identidade é tão diferente daquela que ostentamos que se gera um conflito com consequências nefastas como depressões, doenças somáticas, desiquilíbrios emocionais e comportamentos considerados desadequados pelas normas sociais em vigor. É que geralmente o inconsciente tem mais força que o consciente e aquilo que empurramos para o dentro é repelido para fora com maior intensidade. Mas na medida em que não aprendemos a lidar com isso, nem sequer sabemos interpretar o que nos está a acontecer. Então recorremos a terapêutas, tomamos medicamentos, procuramos conselhos de amigos, etc, sempre na tentativa de repôr a normalidade, quando por vezes a normalidade que ambicionamos é construída com base numa identidade falsa. Recusamo-nos a deixar a máscara que vestimos, pois não sabemos viver sem ela. Por isso somos toda a vida actores, mesmo sem termos consciência disso. E dizem algumas pessoas que não têm veia artística!!

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