quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Gato-Cão


Existe na localidade onde vive um gato-cão. Como mostra a fotografia, cinquenta por cento do pelo deste animal parece-se com o de um gato, enquanto os outros cinquenta parecem pertencer a um canídeo.

Ao vê-lo pela primeira vez, fiquei espantada, parecia-me uma aberração. Estava a cinco metros de mim e pude fotografá-lo. Achei que tinha encontrado um "tesouro" da natureza e até enviei por mail para alguns amigos.

Na altura pensei tratar-se de um gato vadio que passou por ali e seguiu o seu caminho, pois nunca mais lhe pûs a vista em cima. Passados cerca de dois meses, ao fazer jogging, passei por aquele local e vi-o. Estava à porta de uma das casas térreas de onde saiu uma senhora de muita idade, pegou no animal e levou-o para o interior do seu quintal, lançando-me um olhar reprovante pela minha atitude de curiosidade em relação ao bicho. É que eu aproximei-me dele e comecei a examinar o seu estranho pêlo.

Senti-me muito mal, pois de repente percebi o porquê daquele olhar. Reparei que o gato estava doente e o que quer que lhe tinha provocado aquela anomalia no pêlo não era certamente motivo de orgulho. É claro que ao animal não importava a minha curiosidade ou indiferença, mas a dona percebeu. Percebeu que o seu amado animal de estimação, só porque era diferente, era visto como uma aberração, provocava exclamações aos transuentes e era até objecto de registo fotográfico. Pensei que a situação não seria diferente se se tratasse de uma pessoa. De repente imaginei-me no lugar do gato. Será que a situação seria idêntica? Será que as pessoas parariam para ver as minhas anormalidades físicas? Fiquei com imensa pena dele.

O ser humano tem tendência para fazer isto em relação ao seus iguais também. Seria eu capaz de o fazer? Não, não seria. Mas qual é a diferença então? Realmente não sei responder a esta pergunta, ou melhor, sei, era porque ainda não tinha parado para pensar. Aquele gato fêz-me acordar para uma realidade que ainda estava adormecida em mim: não julgues os outros pela aparência, nem mesmo um animal, pois não gostarias que te julgassem a ti. Se hoje coloco aqui a fotografia é apenas para que tenham a ideia do que estou a falar.

Naquele dia, voltei atrás e pedi desculpa à dona.

1 comentário:

Anónimo disse...

Sempre fui gordo. Logo sou diferente. Durante muito tempo fui um alvo de piadas.
Ainda hoje é um fardo que me acompanha...

É dura a vida...