sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Os vários tipos de ansiedade - Correlação com o medo

Apesar de muitas vezes enfiados no mesmo saco, os transtornos psicológicos ligados à ansiedade têm diferenças entre si, quer em termos de sintomas ou mesmo de tratamento. Assim, convém antes de mais perceber quais as principais diferenças.

  • Ataques de Pânico - São episódios de ansiedade extrema de curta duração, com sintomas físicos bem marcados, tais como taquicardia, falta de ar, síncope, tonturas, sudorese.
  • Fobias específicas - medos injustificados e exagerados de algo ou alguma situação em particular. As crises são desencadeadas pela presença do objecto ou situação ou pela sua previsão ou possibilidade de ocorrência.
  • Stress pós-traumático - ocorre na sequência de um acontecimento com uma carga emocional negativa muito intensa (ex. acidentes, guerras, etc). A pessoa vivencia essa situação vezes sem conta, é como se tratasse de uma fotografia impressa na memória factual e emocional que não desaparece com o tempo, como seria normal.
  • Ansiedade generalizada - os sintomas associados à ansiedade comum (não patológica ou normal) encontram-se exacerbados, prolongam-se por muito tempo e perturbam o normal funcionamento da vida do indivíduo, causando marcado sofrimento. O seu objecto é indefinido.


O que pretendo analisar aqui é a relação entre a ansiedade generalizada e o medo irracional. Este tipo de ansiedade parece evoluir de situações de stress intenso e pode ser desencadeado por algum acontecimento stressante, ao qual o indivíduo não se conseguiu adaptar. Há uma correlação mórbida entre os sintomas físicos e o evoluir do quadro. A insegurança típica dos estados ansiosos associada à persistência dos sintomas físicos leva ao desenvolvimento do medo. É certo que se suprimíssemos esta emoção não teríamos ansiedade. É importante verificar aqui a presença de uma outra emoção que é a angústia. Esta última intensifica o sofrimento psicológico. Cria-se portanto um efeito bola de neve, no qual ansiedade gera medo que gera angústia que gera novamente ansiedade e assim por diante. Não se sabe ao certo o que desencadeia o quê, apenas que é impossível dissociá-los.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A importância do contacto físico

Numa altura em que cada vez mais a internet e o telemóvel substituem os encontros físicos, em que o trabalho e a escola afastam as famílias e em que a televisão as remete ao silêncio, mudou a forma como "contactamos" uns com os outros. O certo é que já há algum tempo isto vinha acontecendo, porém agora isso está-se a verificar de forma massificada e atingindo grupos etários cada vez mais jovens. Muda também, em consequência, a forma como nos contactamos fisicamente.
Há uma razão para que, em quase todas as culturas haja um tipo físico de cumprimento: um aperto de mão, dois beijinhos na cara, esfregar os narizes, até um beijo na boca. Este primeiro contacto aproxima as pessoas, é uma forma de empatia e de identificação, um sinal de paz que premissa algo de agradável ou pelo menos não ofensivo daí para a frente. É uma forma de dizer "venho em paz e espero que também venhas", "sê bem-vindo", "agrada-me ver-te".
Hoje em dia, além desses gestos iniciais - e muitas vezes nem esses - a maioria das pessoas passa grande parte das suas vidas sem mais nenhum contacto físico. Não há um toque, um abraço, um pegar na mão a um amigo, filho ou pai, irmãos... Entre os casais há sexo, muitas vezes consentido mas sem sentido, onde são o ímpeto animal ou o hábito a comandar, a embalar uma relação quase adormecida. O ser humano necessita de contacto. Necessita de um toque, de um abraço que preencha o vazio de afecto que a vida de hoje e o individualismo para que somos empurrados pela ausência de valores, instalaram. Então buscamo-lo em outros lugares: em relações amorosas fortuitas, em massagens, em animais de estimação, em violência... muitas vezes a violência nada mais é que a necessidade de contacto, a par com a de afecto, mesmo quando entre casais onde não existe falta de sexo. É um grito, uma forma de ter de alguma maneira o que não se tem de outra ou se não é capaz de dar.
É claro que isto não é válido para todas as situações, mas o certo é que um abraço entre um pai e um filho, amigos, etc, fortalece relações entre ambos e alimenta-os de conforto; mesmo uma simples palmada no ombro de um desconhecido pode significar, se não mais, que ainda somos suficientemente humanos para sermos dignos de que alguém nos tencione transferir afecto.

domingo, 7 de novembro de 2010

Medo: vale a pena pensar nisto....

Quem já viveu muito, quem venceu na vida ou a quem a vida ensinou muito, deve ser escutado com muita atenção. Buscamos em livros, em médicos, na internet, etc, respostas para as nossas angústias, quando muitas vezes bastava lembrar as frases de algumas dessas pessoas.

Retirado da Wikiquote:
  • "A única coisa da qual devemos ter medo é do próprio medo".
- only thing we have to fear is fear itself
- Franklin D. Roosevelt discurso de posse (4 de Março de 1933)
  • "Tenho mais medo da mediocridade que da morte".
Bob Fosse
  • "Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz. Coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência do medo".
Mark Twain
  • "Só erra quem produz. Mas, só produz quem não tem medo de errar. As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injetado o veneno do medo. Do medo da mudança".
Octavio Paz
  • "Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz".
Platão
  • " Não é que eu tenha medo da morte. Eu apenas não quero estar lá quando isso acontecer".
Woody Allen
  • "O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não. O medo é a maior das doenças, porque paralisa o corpo e a mente. Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite".
Clarice Lispector
  • "A vida é maravilhosa se não se tem medo dela".
Charles Chaplin
  • " ...mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo".
Luis Fernando Verissimo
  • "O medo me fascina".
Senna, piloto Fórmula 1, em 1991
  • "O medo faz parte da vida da gente. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, outras - acho que estou entre elas - aprendem a conviver com ele e o encaram não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de autopreservação".
Senna, em junho 1991
  • "(Quando foi perguntado se tinha medo da morte) Da morte, nunca tive medo. O que não quero é ficar aleijado. Disso sim, tenho um medo que me pelo".
Nelson Piquet, piloto de Fórma 1
  • "À medida que nos libertamos de nossos medos, nossa presença automaticamente liberta outros".
Harriet Rubin, em A Princesa - Maquiavel para Mulheres
  • "Você ganha forças, coragem e confiança, a cada experiência em que você enfrenta o medo. Você tem que fazer exatamente aquilo que acha que não consegue".
Eleanor Roosevelt
  • "Não tenho medo das tempestades porque sei como guiar meu navio".
- I'm not afraid of storms, for I'm learning how to sail my ship.
- "Little women‎" - página 258, Louisa May Alcott - BompaCrazy.com, 1955 - 412 páginas
  • "Quando patinamos no gelo fino nossa segurança está na velocidade".
Ralph Waldo Emerson
  • "No fundo sabemos que o outro lado de todo o medo é a liberdade".
Marilyn Ferguson
  • "Guarde seus medos para você mesmo, mas partilhe sua inspiração com todos".
- Keep your fears to yourself but share your courag e with others.
- Robert Louis Stevenson citado em "The Pennsylvania medical journal‎" - Vol. 10, Página 438, de Medical Society of the State of Pennsylvania - 1907
  • "Não tenho medo do amanhã porque já vi o passado e amo o dia de hoje".
- I am not afraid of tomorrow, for I have seen yesterday and I love today.
- William Allen White citado em "Peabody Journal of Education‎" - Página 88, de George Peabody College for Teachers - Publicado por George Peabody College for Teachers, 1923
  • "De todas as paixões, o medo é aquela que mais debilita o bom senso".
Jean Retz
  • "O medo é o pai da crença".
Olavo Bilac
  • "O que se opõe à fé e à esperança não é tanto a descrença e o ateísmo. Mas o medo e a inquietação."
Leonardo Boff
  • "Ao fim de uma vida preenchida pelo medo, o medo que mais apavora é a ausência de medo".
Zygmunt Bauman
  • "Toda a doença que se manifesta em nós vem do medo, e tudo que é de bom vem do amor."
- All the ill that is in us comes from fear, and all the good from love
- Martin Pippin in the Apple Orchard‎ - Página 195, de Eleanor Farjeon - Publicado por BiblioBazaar, LLC, 2008, ISBN 0554217171, 9780554217178 - 300 páginas
  • "Podemos escolher recuar em direção à segurança ou avançar em direção ao crescimento. A opção pelo crescimento tem que ser feita repetidas vezes. E o medo tem que ser superado a cada momento."
- One can choose to go back toward safety or forward toward growth. Growth must be chosen again and again; fear must be overcome again and again
- The Psychology of Science: A Reconnaissance‎, de Abraham Harold Maslow - Publicado por ReinventingYourself.com, 2004, ISBN 0976040239, 9780976040231
- la lâcheté, c'est de la peur consentie; et le courage n'est souvent que de la peur vaincue
- Nos filles et nos fils: scènes et études de famille‎ - Página 66, de Ernest Legouvé, Gabriel Jean B. Ernest W. Legouvé, Paul Philippoteaux - Publicado por Hetzel, 1878 - 346 páginas
  • "Ser corajoso é estar morto de medo e, mesmo assim, sobrecarregar-se de qualquer forma".
- Courage is being scared to death — but saddling up anyway.
- John Wayne citado em Invasions‎, de Dave Gardner - iUniverse, 2002, ISBN 0595260608, 9780595260607 - 200 páginas
- Liberty means responsibility. That is why most men dread it.
- Man and superman: a comedy and a philosophy - página 273, Bernard Shaw - Brentano's, 1903 - 244 páginas

Se eu tivesse que escolher uma destas frases, escolheria sem dúvida a de Zygmunt Bauman: "Ao fim de uma vida preenchida pelo medo, o medo que mais apavora é a ausência de medo". Será por isto que tantas pessoas vivem uma vida inteira de pleno sofrimento, sabotando as próprias hipóteses de felicidade?


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O desespero

Já há perto de três anos que relato a vários médicos os meus sintomas (ver post "Tensão em Demasia causa Sono"), observando sempre a mesma reacção: um encolher de ombros, ainda que apenas imaginado, traduzindo a sua incapacidade de fazer um diagnóstico correcto. Pergunto a mim mesma se serei única no mundo a tê-los. Normalmente receitam-me qualquer coisa. Qualquer coisa que nem sabem se preciso, apenas receitam qualquer coisa, com a esperança que actue como placebo. Há ainda aqueles que aproveitam a oportunidade para aprender e como tal transformam-me numa cobaia involuntária e sem o saber.
A resposta aos medicamentos pode-nos colocar numa posição muito vulnerável: pelos seus efeitos directos e secundários, pelo facto de provocarem alterações que sugerem diagnósticos nada apetecíveis, pelo simples facto de não nos levarem a lado nenhum e de nos estarem a fazer perder tempo.
Apesar de ser ainda jovem, a maioria dos medicamentos sugeridos estão associados ao tratamento da doença de Parkinson. Isso deixa-me triste, principalmente quando na farmácia me perguntam com ar complacente: "É para si? Ainda é tão jovem..."... Bom, isso também eu digo, apesar de saber que o que me está a ser receitado é apenas uma tentativa de combater os sintomas de algo que ainda não tem nome.
Está a tornar-se muito difícil trabalhar como me encontro. Não consigo conter os bocejos, o espreguiçar constante, a vontade incessante de me movimentar. Entre a demora de solução por parte dos clínicos e o frustrado avançar da minha carreira profissional, o sofrimento faz-me ansiar por respostas. Respostas que ninguém tem, respostas que quem as procura se encontra de repente num labirinto do qual não encontra a saída. Perante tal, meto eu mãos à obra. É para isso que servem a Internet e os livros. Gostava ao menos de encontrar alguém com os mesmos sintomas com quem pudesse trocar ideias. Até lá entrego-me à minha busca solitária. Mesmo que não encontre o que procuro, congratulo-me por tudo o que tenho aprendido durante o percurso.