domingo, 29 de julho de 2012

Colecção de mágoas....

Já fizeram uma limpeza ao sótão, ou àquela arrecadação onde vão guardando ao longo dos anos tudo o que já não cabe no sítio? Pois é, de vez em quando todos fazemos isso, nem que seja uma vez por década...
Esse lugar está cheio de coisas que por terem algum valor sentimental, não as deitamos fora. Quando, passados anos, as revemos, cada um de nós tem uma surpresa: os que viveram alegrias, vão sorrir ao ver velhas fotografias, brinquedos de infância, postais de amigos, etc, etc.; os que sofreram ao longo da vida, vão olhar para essas mesmas coisas com um sentimento de tristeza e lágrimas nos olhos. Nessa altura, qualquer deles vai sentir que na vida coleccionou, não coisas, mas sentimentos: alegrias ou mágoas. 
Dói muito, para quem só coleccionou mágoas, fazer a arrumação dessa tal divisão... mas muitas vezes não guardamos essas mágoas apenas numa divisão onde só vamos de tempos a tempos. Por vezes toda a nossa casa está cheia de recordações: o bibelot que nos ofereceu A, os lençóis onde dormimos com A, os pertences dos que já partiram... Não nos damos conta de que tudo à nossa volta representa a nossa vida. É verdade que, independentemente dos objectos, os sentimentos estão no nosso coração, mas revê-los é reviver vez após vez esses mesmos sentimentos. 
Afortunados os que têm boas coisas para recordar, por para alguns a sua vida não passa de uma colecção de mágoas!

domingo, 8 de julho de 2012

A Espiral da Procura

Gosto de chamar a este tema "A mulher só e o príncipe encantado", com referência a um livro de Jean-Claude Kaufmann.
Cada pessoa é como é, física e emocionalmente falando. A sua estrutura emocional, variável portanto de indivíduo para indivíduo, faz com que aquilo que os satisfaz varie também. É natural que cada um de nós, desde que temos consciência dos nossos desejos, que procuremos algo que os satisfaça, que nos realize. Contudo, ao longo da vida vamos acumulando ensinamentos, vamos aprendendo a esquecer o nosso lado instintivo. Passam a então a coexistir dois sistemas de valores para cada pessoa: aquele que lhe é intrínseco, e aquele que foi aprendendo ao longo da vida. Muitas vezes não coincidem e por vezes são mesmo contraditórios.
Como é natural, também procuramos parceiros (namorados/as, esposos/as, amantes, etc). O que procuramos é algo mais que físico, é alguém que partilhe os nossos valores, que nos complemente, enfim, a nossa alma gémea como muitos lhe chamam. Muitas vezes erramos, não porque não soubemos escolher, mas porque não nos estávamos a reger pelo nosso sistema de valores intrínseco mas sim pelo aprendido. Mas acontece a todos. É então que vamos também acumulando mágoas, cicatrizes que não desvanecem com o tempo. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a nossa procura não pára, mesmo quando a fazemos parar na prática. O nosso ego continua à procura, refinando cada vez mais os filtros. Continua à espera do príncipe ou da princesa encantada.
A personagem do príncipe ou da princesa encantada refere-se a uma pessoa que não existe, de tão perfeita que terá que ser. Trata-se de alguém inalcansável,que vive apenas na nossa imaginação.
Quando se encontra a nossa alma gémea, a nossa procura pára. Não temos mais necessidade de continuar em plena procura porque já encontramos a pessoa que se enquadra no nosso sistema de valores intrínseco. Finalmente os nossos radares inconscientes descansam. Até lá, mesmo sem saber, entramos numa espiral de procura interminável, pois ela aumenta na medida em que cada vez mais nos apercebemos de que esse príncipe/princesa encantado/a não existe.