quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O peso da esperança

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A esperança pesa. Custa a carregar. Porque se é esperança não é realidade ainda, é apenas a fé na realização de um desejo. Isso quer dizer que o presente não é perfeito, que a situação que se quer que mude está a causar algum tipo de sofrimento. E enquanto a esperança nessa mudança persistir, nada será alterado, caso contrário não seria esperança mas sim realidade.
É confuso, não é? Eu explico com uma situação concreta.
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Uma mulher vive momentos difíceis no seu casamento. O seu marido está constantemente a magoá-la. Ela vê o futuro muito incerto na relação. Como está, dói. Mas ela espera que a situação mude. Não conscientemente, porque o cérebro já percebeu que isso não vai acontecer. O cérebro sim, mas o coração não. Esse não consegue parar de acreditar que um dia tudo será como o seu desejo. Então tenta. TENTA. Esta é a palavra que pesa. Pesa porque implica sacrifício. Pesa porque é em vão. Pesa porque é trabalho a dobrar, dá muito trabalho o coração fazer o cérebro acreditar que a fé que tem, tem algum fundamento. Trava uma batalha contínua para que isso aconteça, consome toda a energia. Não resta mais para aquilo que é mais importante: ser feliz. Adia-se a felicidade por acreditar que a mesma só será possível quando tudo estiver bem na relação.
No dia que o coração, exausto, desistir da luta, será possível então canalizar a energia gasta para viver de verdade. Ninguém vive de verdade carregando o peso de uma relação, sabendo que a mesma só existe porque um deles está a tentar. Então e o outro? É como carregar um pedregulho. Conseguiria correr com um pedregulho atado ao tornozelo? Nem andar, não é mesmo?
Esperança é fé. Fé que não tem fundamento é ilusão. Ilusão é o engano dos sentidos e da mente.
Vale a pena pensar nisto.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Efeitos das benzodiazepinas a longo prazo

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Um dos medicamentos mais  úteis para quem sofre com transtornos mentais é sem dúvida as benzodiazepinas (BZD). 

Cientificamente falando, estes pertencem à  classe de fármacos psicotrópicos e à classe farmacêutica dos ansiolíticos. A sua estrutura química é a fusão de um anel de benzeno com um anel de diazepina. Estão aqui incluídos medicamentos como Valium, Lorazepan, Lexotan, etc. Os seus efeitos a curto prazo no controlo da ansiedade são bem conhecidos de todos. Contudo os efeitos a longo prazo, são controversos. 

Um dos riscos do uso prolongado é a dependência física e psicológica,associado à diminuição gradual da sua eficácia. Mas há outros. Por exemplo, os BZD reduzem significativamente a nossa capacidade de memorizar novas informações, daí que o seu uso prolongado interfere nos nossos processos cognitivos, dificultando a concentração, a capacidade de resolver problemas, relacionar ideias e deduzir informação (fonte). Muitas vezes o uso prolongado faz aparecer sintomas opostos ao desejado (efeitos paradoxais), como aumento da ansiedade, depressão, irritabilidade, despersonalização, psicoses, pesadelos entre outros. Ou seja, aquilo que é suposto combater, e que resulta bem a curto prazo.

Ultimamente têm sido feitos muitos estudos que revelam algo ainda mais assustador: A longo prazo, pessoas de idade mais avançada, podem desenvolver precocemente algumas formas de demência. Foi publicada em  2014 no British Medical Journal" uma pesquisa que relaciona o uso frequente e prolongado destas substâncias em idosos com um risco até 51% maior de desenvolver a doença de Alzheimer, uma das principais formas de demência e que afecta cerca de 36 milhões de pessoas. Apesar de não estar comprovado que existe causa directa, o estudo vem reforçar a suspeita que existia anteriormente da associação entre o remédio e a doença.

Apesar das suspeitas que existem à muito tempo, a verdade é que os terapeutas receitam benzodiazepinas por tudo e por nada. E o pior, é que isto é assim desde à décadas, estando agora os efeitos a fazer-se sentir em alguns indivíduos, sem forma de voltar atrás. Na esmagadora maioria das vezes, o paciente não é informado das consequências dos medicamentos que toma, muitas vezes até desconhece o quê exactamente é que está a tomar. Quem é que ouviu dizer do seu médico "não tome BDZ por muito tempo porque isso tem implicações a longo prazo na memória"?
Muito cuidado com estas "drogas legais", e converse com o seu médico sobre isto, quando tomar um medicamento, tome-o esclarecido!




domingo, 11 de fevereiro de 2018

Quando os antidepressivos causam depressão

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Se é verdade que quando temos uma depressão devemos tomar medicamentos, quer sejam antidepressivos ou ansiolíticos ou outros indicados para controlar os sintomas, a verdade é que por vezes os efeitos secundários podem levar a quadros depressivos, principalmente se estivermos a falar de períodos de tempo muito extensos.

Uma infância conturbada e uma adolescência complicada levaram-me a começar a tomar antidepressivos antes da maioridade.  Iniciei com Anafranil (antidepressivo tricíclico) e doses muito elevadas de ansiolíticos e tive acompanhamento psicológico concomitantemente. Consequências?  Letargia, sono excessivo, embotamento afectivo, taquicardia, entre outros. Normal, para medicamentos do género. Se me sentia triste, sem vontade de viver, a ver um futuro negro, sentir-me assim, como se andasse meio bêbada e a adormecer na escola, fez com que eu me afastasse de toda a gente, me isolasse cada vez mais, o que tornou a minha vida social num verdadeiro desastre. Então eu estava triste por isso. Então eu via o futuro negro pois não conseguia mudar a situação por mais que me esforçasse. Vivia a vida em tons de cinzento e completamente alienada da realidade.

O pior disto é que, dado que não houve nenhum período em que me sentisse bem, não consegui estabelecer a relação entre o que sentia e os medicamentos. Eu detestava-me. Comecei a mentalizar-me de que tudo era fruto da minha personalidade.  E os terapeutas também começaram a pensar o mesmo.  Na verdade eles nunca me tinham conhecido de forma diferente, e dado que minha depressão vinha desde a pré-adolescência, também de mim não ouviam relatos que sugerissem que alguma vez tivesse sido uma pessoa diferente. O que faziam então era "passar a mão no pelo", enquanto eu me afundava cada vez mais.

Como eu me sentia sempre na mesma, ao longo da vida foram-me receitando todo o tipo de medicamentos para a depressão e ansiedade que existem, na expectativa de acertar com o correcto para mim. Consequências?  Mais do mesmo. Eu continuava na mesma, triste, frustrada, confusa, abatida. Os efeitos secundários dos medicamentos estavam a dar cabo da minha vida.
Mais tarde comecei a tomar ISRS (inibidores selectivos de recaptação da seretonina). Passei a sentir-me um pouco melhor, contudo com o tempo comecei a notar que essas melhoras eram cíclicas. Andava um tempo melhor, construía alguma coisa, mas passado algum tempo estava na fossa outra vez e acabava por destruir tudo aquilo que tinha construído. Então perdi simplesmente a vontade de construir, a vontade de lutar. Se não tomasse os medicamentos sentia-me mal, se tomasse sentia-sentia-me mal.  Então vivia isolada, com o sentimento de que nada valia  pena. Não valia a pena lutar, eu não valia nada. Nunca consegui nada a vida toda, porque havia de esperar conseguir agora? Agora, que já tinha vivido mais de metade do tempo de esperança médio de vida para um ser humano?!...

O que me salvou foi pensar que nenhum médico nem nenhum medicamento me iria nunca tirar daquela situação, apenas eu mesma o poderia fazer. Tinha que ser a terapeuta de mim própria, pois tudo o resto tinha dado provas de ineficácia.  Valeu.-me a minha curiosidade, que me levou a ler bastante. Livros de auto-ajuda e sobre inteligência emocional ajudaram-me a perceber que o problema não estava nos diagnósticos ou na medicação. Parti do principio que, ainda que o problema fosse a minha personalidade eu poderia aprender a mudar algumas coisas. Mas o que eu aprendi foi que eu não sabia quem eu era! Tudo aquilo que eu pensava que era era fruto das circunstâncias ou dos efeitos secundários dos medicamentos, e isso estava a esconder o verdadeiro eu. E mais: descobri que a fonte de todos os meus problemas estava na forma de pensar. Toda a vida eu tinha pensado de forma errada e o meu historial clínico tinha-a consolidado.

Descobri o meu "eu" verdadeiro, mudei radicalmente a minha forma de pensar e de ver o mundo e comecei a sentir-me como nunca antes! Passei a ver o mundo a cores, finalmente.
Não deixei de tomar medicamentos pois sei que eles me fazem falta, mas só desta forma eles passaram a ser realmente eficazes.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Causas do sofrimento: masoquismo, integridade e zona de conforto

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Muitas vezes perguntamos porque estamos sempre a cair em situações que nos fazem sofrer.

Existem três expressões para explicar a causa de grande parte do sofrimento humano: masoquismo, integridade e zona de conforto. 

O sofrimento em si pode ser gerado por factores externos, inevitáveis, como guerras, catástrofes ambientais ou doenças. Porém, parte do sofrimento humano é "causado" pelo próprio "sofredor".O masoquismo significa prazer em sofrer. Existe uma extensa literatura no campo da psicologia e outras ciências que versa sobre este tema, contudo, porque contraria o princípio instintivo de todo o ser vivo de evitar o sofrimento, quem o procura tem que ter algum tipo de disfuncionalidade.

Apesar de chocar muitas pessoas, temos que nos comparar aos restantes animais, principalmente mamíferos. Nós somos biologicamente animais, e se há algo de inato em nós é o instinto de sobrevivência e o instinto de procura do prazer. O primeiro leva-nos a afastarmos-nos de tudo o que nos cause dor e desconforto, o segundo a aproximarmos-nos das coisas que nos causam boas sensações Ainda que por vezes se tenha que sofrer para alcançar o prazer (felicidade), este fim último, como finalidade da vida acaba por funcionar como uma recompensa. Aproximarmos-nos de algo que nos cause sofrimento em busca de algo que termine ou atenue um sofrimento maior ou reverta o actual para um estado de felicidade. Isto não se enquadra no masoquismo, pois o fim último do masoquista, o seu prazer, é o próprio sofrimento.

Se como animais é normal agirmos como acima referido, contudo somos animais de hábitos. E de teimosias! Isto para explicar que muitas vezes, seja qual for o motivo, somos expostos ao sofrimento. Porém, ou a repetição do mesmo em curtos períodos de tempo, ou a persistência do mesmo, leva a que nos habituamos. O estado "sofredor" passa a ser o nosso estado "normal".

Com base no instinto de sobrevivência, e partindo do princípio que não somos masoquistas, seria normal fugirmos daquilo que nos causa tal estado. Mas o que observamos muitas vezes é que muitas pessoas não o fazem, ou se o fazem acabam por encontrar rapidamente algo que as coloque nesse estado outra vez. Isto porque são íntegras! Elas "mantêm a palavra", ou seja, se disseram a elas mesmas "Eu sou um sofredor", não vão mudar a palavra dada! Pode parecer absurdo, mas a verdade é que isso acontece de uma forma insconsciente. Se passarmos a ser felizes, sentiremos que estamos a faltar à nossa palavra, a trairmos-nos a nós próprios, a "virar outra pessoa", o que não nos agrada. Isto passa-se sem que tenhamos consciência disso, sem entrarmos em quadros patológicos.

A permanência ou repetição de situações que nos causam sofrimento funcionam como se fossem a nossa família. Aquele é o estado que conhecemos. Estar em sofrimento torna-se tão familiar, que se há uma coisa que o instinto de sobrevivência nos ensinou foi a fugir do desconhecido. Por isso, tempos sempre a tendência a voltar para aquilo que conhecemos, a "voltar para casa", por muito aventureiros que sejamos. Isto porque aquele sentimento, agradável ou não, passa a ser familiar. No futuro, iremos escolher, inconscientemente claro, estar em situações que despertem em nós o sentimento que nos é familiar, bom ou mau,não importa.

Desta forma podemos dizer que muito do sofrimento do ser humano é causado pelo próprio, quer porque lhe dê prazer, porque é íntegro, ou porque é sempre difícil sair da "zona de conforto".

domingo, 8 de outubro de 2017

Quando a vida é uma Montanha Russa

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Imagine que vivia numa montanha russa. Todos os dias, quando a feira abria, começava a funcionar e lá você ia para cima e para baixo, umas vezes lentamente outras a velocidades vertiginosas. Passado algum tempo, a roda parava, os passageiros saiam e entravam outros e começava tudo de novo. Durante esse curto espaço de tempo, você fechava os olhos e tentava recompor-se, antes que a próxima volta começasse. No final do dia, quando a feira fechasse, você podia finalmente relaxar. Mas estava tão cansada, tão esgotada, que a única coisa que conseguia fazer era dormir, e por vezes dormir em sobressalto pois sabia que no dia seguinte tudo recomeçaria de novo. 

Isto é-lhe familiar? É que por vezes é assim que vivemos a nossa vida. Sem estabilidade, num contínuo stress, num constante sobe e desce de emoções. A palavra certa é "Esgotante". É esgotante viver assim. Você não consegue fazer nada da sua vida, entra em depressão, só quer que a roda pare e sair da feira para uma ilha deserta. A certa altura é só nisto que você pensa o tempo todo. O cansaço tira-lhe a vontade de tudo. Você não vive, sobrevive. 

O que é que você pode fazer? Atirar-se da montanha russa? Tomar comprimidos para dormir para não sentir nada? Gritar até que alguém ouça e lhe dê atenção? Parece que é óbvio aquilo que é certo você fazer: quando a roda parar, desça, com os restantes passageiros. Ah, é assim tão simples? Então e o cinto de segurança que a prende à cadeira? O fecho está enferrujado pois já não é usado à tanto tempo e não se consegue abrir.

Na nossa vida passa-se exactamente o mesmo. Todos nos dizem: "Sai dessa vida!", mas ninguém sabe que não conseguimos abrir o fecho do cinto de segurança que nos prende à mesma. 

domingo, 1 de outubro de 2017

A verdade por detrás das nossas atitudes e sentimentos

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Nem sempre aquilo que sentimos é o que parece, inclusive para nós próprios. O nosso cérebro é um mecanismo muito complexo. Ele é comandado mais pelo inconsciente, ao qual não temos acesso, do que pelo consciente, o qual comandamos. Por exemplo:
- Perante um acontecimento demasiado traumatizante, o cérebro utiliza mecanismos de defesa contra o sofrimento causado pelo mesmo. Pode induzir a amnésia ou criar falsas memórias. 
- Perante uma decisão demasiado difícil a nível pessoal, pode por exemplo esquecer-se de datas, de nomes, ou simplesmente arranjar ocupações para se sobreporem à tomada daquela decisão.
- Perante a morte ou a perda pode simplesmente entrar em negação. Apesar de saber exactamente o que aconteceu, não aceita a realidade, para ele é como se estivesse a ver a notícia num jornal, respeitando a outra pessoa e não ao próprio.
- Perante uma traição por exemplo, pode ignorar os sinais que manifestamente serão impossíveis de ignorar, relativizando-os de forma a não ter que enfrentar o confronto que lhe traria mais sofrimento ainda. 
Estas situações de que falei agora não são mais do que fugas. Fugir à realidade afim de atenuar/anular/adiar o sofrimento. Mas muitas há que são apenas manifestação de um cérebro confundido com anos de sentimentos recalcados, regras sociais, incongruência entre o sentir e o querer. Pensamos que sabemos o que queremos, mas não é isso que queremos. Isso é apenas a solução que o cérebro nos deixa ver, pois tem escondidas todas as outras, as que realmente curavam. E tem-nas escondidas porque sabe que iria causar demasiado sofrimento e não sabe lidar com ele. Pelo menos para já.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Quando cai o véu... e a depressão

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Somos hoje as mesmas pessoas que fomos ontem; somos as mesmas pessoas antes, durante e depois de uma depressão. Então porque razão nos sentimos tão diferentes quando estamos deprimidos? A razão é que durante essas alturas não somos verdadeiramente nós. A nossa visão do mundo está deturpada, a nossa atenção está focada em nós de forma patologicamente intensa. Parece que o mundo nos está a cair em cima, sentimos-nos ansiosos, com medo, irritados. Temos a sensação de sermos a pessoa mais desgraçada deste mundo. Mas porque é que nos sentimos assim nestas alturas?

Seja porque razão for, é como se tivesse caído o véu que afasta o nosso eu da atenção de si mesmo. Atenção exagerada, porque se for com medida é positiva. Quem não se sente deprimido sente um certo afastamento em relação à forma como vê o seu corpo a a sua vida em geral. Não quero dizer que se alheia ou não quer saber, mas sim que olha para estes como se olhasse para outra pessoa, que neste caso é o próprio. A partir do momento em que deixamos de o fazer, afastamos-nos do mundo e dos outros de tal forma que passamos a ser o único foco de atenção. Nada mais interessa, por isso tudo dói. Até viver dói. Porque o ser humano foi feito para olhar para si próprio como se estivesse a olhar para o outro. 

Alguns aspectos do nosso íntimo estão escondidos atrás de um véu, deixando ver apenas os seus contornos. Seria insuportável ver claramente, não saberíamos lidar com isso. Por isso, quando este véu cai, a dor torna-se insuportável. 

É isto a depressão. Quando cai o véu.