terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Hipocondria

""Comecei com tonturas e com a sensação de desmaio. Primeiro julguei que fosse pela má alimentação, depois talvez um problema de ouvidos devido ao desequilíbrio. Passado pouco tempo comecei a pensar que tinha alguma doença terminal. Fui a uma médica que me disse que não tinha nada, que era tudo do sistema nervoso e stress. Claro que não acreditei", recorda Catarina, 26 anos, livreira. Os primeiros sinais de hipocondria surgiram depois de ter descoberto um gânglio inflamado na zona do maxilar, "fiz o que não se deve fazer - procurar justificações na Internet para algo que encontrei de diferente no meu corpo. Depois da minha pesquisa e de ter encontrado um monte de cancros e doenças terminais para justificar um simples gânglio inflamado, o meu pesadelo começou. Fiz uma ecografia que não acusou nada. No momento fiquei muito aliviada, "curada". Mas no dia seguinte voltou tudo e com mais força ainda. "E se o médico não viu bem e tenho qualquer coisa escondida?", lembra. Catarina não dormia, não aguentava nada no estômago nem nos intestinos. Sentia suores frios, o coração a querer sair do sítio e falta de ar nos pulmões. "É um descontrolo total dos membros e órgãos. É um desespero e um sofrimento inacreditável", sustenta. Recorreu a quase todas as especialidades, fez ecografias e dezassete raios X. "Corri tudo à procura da doença que eu tinha que ter. Sente-se tudo, e nada ao mesmo tempo, sente-se o corpo a desintegrar, palpitações onde não deviam, estalidos que não são normais, é uma atenção pormenorizada a tudo o que acontece e mexe no nosso corpo", afirma. E acabou por atingir o limite quando deixou de sair da cama e de conseguir andar, "cansava-me muito, o coração disparava e era naquele momento que eu ia morrer. É aterrador viver com a permanente queixa, traduzida em dores, do nosso corpo de como já não aguenta mais. Dava dois passos e tinha que descansar ou encostar-me para não cair", explica.
"Imagine que vai a um médico e lhe dizem que tem aproximadamente dois segundos de vida. É isso que se sente, a cada segundo que passa é no próximo que vou morrer, porque sinto uma dor aqui, outra ali, e se não tenho cancro, tenho outra coisa qualquer que ainda ninguém descobriu. Alguém consegue viver assim? Não se consegue pensar em mais nada, nem há interesse para tal. É um desinteresse total, um morrer e continuar a respirar", pormenoriza Catarina."
Este texto é uma transcrição de parte de um artigo publicado na revista "Happy" de Novembro de 2009, pª 250 e 252, sobre casos de hipocondria.
Nada do que encontrei consegue melhor exprimir o sente um hipocondríaco. Apesar de gozados e incompreendidos pelos outros, o seu sofrimento é bem real. Trata-se de um dos casos de fobia mais complicados, quer para o paciente quer para o terapeuta. Primeiro, porque o paciente não supõe que os sintomas que sente se devam a causas psicológicas, logo procura médicos de especializados em tratar o corpo físico. Só muitas vezes devido à exaustão até dos próprios, o paciente é encaminhado para consultas de psicologia ou psiquiatria.
O caso de Catarina atingiu proporções extremas, mas milhares de pessoas vivem no dia a dia a mesma angústia que ela. A vida muda, embora se esforcem por não deixar que os outros se apercebam disso. Primeiro, o medo constante, depois a fuga. Não há lugar para onde fugir, a fuga de que falo é outra. Começa-se por deixar de sair, não querer estar os amigos, deixar de fazer as actividades que antes lhe davam prazer. Porquê? Porque não há disponibilidade para mais nada. Para além da pessoa não se sentir bem, não consegue pensar em mais nada, a sua constante vigia às sensações corporais e procura de uma explicação para elas, além da antecipação de graves enfermidades, não deixam espaço para pensar em mais nada. Nem sentir mais nada. O sofrimento é incrível, Catarina relatou-o bem. Vivem constantemente com medo é insuportável, e às tantas já têm medo de ter medo.
O acontecimento ou acontecimentos que despoletaram a hipocondria ficam marcados no cérebro como uma fotografia que não se consegue apagar, sobretudo sob a forma de emoção. Ainda que o médico diga que está tudo bem, a sensação continua. O que atormenta, o que vem à tona e não deixa viver a vida é a sensação por vezes mais inconsciente que consciente, do medo, da eminência da morte.
Mesmo quando o paciente toma consciência de que se trata de uma fobia, não consegue eliminar a "fotografia". O facto de ter um corpo que, como toda a gente, está sujeito a doenças e a inevitabilidade e impossibilidade de determinação temporal da morte, não dão paz, tanto mais que ninguém nem nada pode garantir que o que se teme não possa acontecer.
Muitos tratamentos são tentados, desde administração de medicamentos, psicoterapia, acumpunctura, EMDR, etc. Penso que o passo decisivo no tratamento não consiste em eliminar os sintomas mas deixar de temer a morte. Por mais absurdo que isto possa parecer, tal como em todas as outras fobias o que se pretende atingir é pôr fim ao medo do objecto das mesmas, porque não pensar nos mesmos termos em relação à hipocondria?

sábado, 21 de novembro de 2009

Stress e Distress


Hans Selye (1936) definia o stress como “Qualquer adaptação requerida à pessoa, isto é, reacção não específica a qualquer exigência de adaptação”.

O stress é fundamental para a nossa sobrevivência. Em pequenas quantidades é positivo, pois permite-nos mantermo-nos interessados pela vida e enfrentarmos desafios. Contudo em quantidades elevadas diminui as capacidades normais do indivíduo e tensão associada

apresenta-se a níveis demasiado desconfortáveis. Quase toda a gente já ouviu falar de stress. Ele faz parte do nosso dia-a-dia e quem não o sentiu já de vez em quando?

A forma como se fala do stress nas sociedades modernas ocidentais, faz pressupor que se trata de algo recente, mas é algo com o qual convivemos desde o tempo em que vivíamos nas árvores. O psiquiatra João Vasconcelos Vilas-Boas afirma que “o stress é sempre uma resposta emocional a uma situação de risco, resposta essa que pode ser adequada ou desadequada”. O mesmo psiquiatra refere ainda que o stress “não é uma doença mas um sintoma ou conjunto de sintomas”.

O que se está a passar hoje em dia na nossa sociedade é que estamos rodeados de “indutores” de stress, estamos a acelerar as nossas vidas de forma a responder às exigências externas, mas também internas, pois muitas vezes impomos metas e objectivos a nós próprios demasiado severos.

O stress afecta a percepção, o sistema nervoso, o equilíbrio hormonal, o sistema cardiovascular, o

sistema digestivo e o respiratório, o trato urogenital e o sistema imunológico. Aquele normalmente designado como "mau" é o chamado "distress" que aparece quando o organismo não sabe adaptar-se a uma nova situação e responde de forma desmesurada ao estímulo que essa situação provoca. Neste caso o indivíduo fica incapaz de pensar e de se concentrar e mesmo quando o estímulo acaba o corpo não sabe como voltar ao estado normal. (Departamento de Engenharia Informática Universidade de Coimbra, Stress Comunicação Técnica Profissional, Luis Fernando Lopes).

O stress não surge de um momento para o outro. Existem três fases:

- Fase se alarme, em que, perante uma nova situação que se impõe ao indivíduo O cerebro recebe e analisa os estimulos que lhe chegam dos sentidos e compara com a informação que já

tem armazenada. Se julga não ter os recursos suficientes para lhe fazer face, envia um sinal de alarme que vai libertar hormonas como a adrenalina e o cortisol, que faz aumentar o batimento cardíaco, dilatam as pupilas, os músculos ficam tensos, etc, tentando preparar o corpo para o perigo eminente;

- Fase de resistência, em que o organismo tenta a recuperação do organismo após o dequilíbrio inicial, consumindo desta forma mais energia, o que pode originar cansaço excessivo;

- Fase de esgotamento, ou seja, quando a resistência do corpo se esgota, quando o cansaço nos derrota. Aqui o stress passa a distress, ou seja, mau stress, que tem consequências nefastas para o organismo.

O distress provoca problemas a nível físico e psíquico. Pode provocar palpitações, desiquilíbrios hormonais, tensão muscular, tensão arterial alta, inquietação, dificuldades em pensar e tomar decisões, insónias, perda de concentração entre outras. Uma situação de stress mantida por muito tempo pode levar à morte e, segundo uma investigação da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington pode provocar perda de neurónios. Contudo, relativamente a esta última questão o médico português Nuno Sousa provou no seu doutoramento que o stress crónico não conduz à morte dos neurónios, mas que o hipocampo apenas fica atofiado porque diminuem as sinapses (a comunicação entre os neurónios), conduzindo à reversibilidade da situação.

Sntomas de distress são vários, desde a tensão muscular, à pulsação elevada, a diarreias e indigestões, falta de desejo sexual, dificuldades em conciliar o sono. Variam de pessoa para pessoa.

Existem formas de aliviar o stress: fazer exercício físico, planear o dia-a-dia, ingerir comida mais saudável, tirar um tempo para si próprio, tentar dormir pelo menos oito horas, etc. Já agora uma boa notícia para os amantes de chocolate: comer perto de 30 gr de chocolate preto por dia reduz o nível de hormonas de stress!

O sress crónico, além do mal estar que provoca, pode evoluir para quadros trasntorno de ansiedade generalizada, depressão, ataques de pânico e levar a um aumento do risco de contrair infecções devido à quebra no sistema imunitario. Convém consultar um terapeuta nos casos mais graves.

Vale a pena ler o artigo pulbicado em http://www.fchampalimaud.org/images/uploads/Publico_July31_2009.pdf sobre stress e rotina.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Gato-Cão


Existe na localidade onde vive um gato-cão. Como mostra a fotografia, cinquenta por cento do pelo deste animal parece-se com o de um gato, enquanto os outros cinquenta parecem pertencer a um canídeo.

Ao vê-lo pela primeira vez, fiquei espantada, parecia-me uma aberração. Estava a cinco metros de mim e pude fotografá-lo. Achei que tinha encontrado um "tesouro" da natureza e até enviei por mail para alguns amigos.

Na altura pensei tratar-se de um gato vadio que passou por ali e seguiu o seu caminho, pois nunca mais lhe pûs a vista em cima. Passados cerca de dois meses, ao fazer jogging, passei por aquele local e vi-o. Estava à porta de uma das casas térreas de onde saiu uma senhora de muita idade, pegou no animal e levou-o para o interior do seu quintal, lançando-me um olhar reprovante pela minha atitude de curiosidade em relação ao bicho. É que eu aproximei-me dele e comecei a examinar o seu estranho pêlo.

Senti-me muito mal, pois de repente percebi o porquê daquele olhar. Reparei que o gato estava doente e o que quer que lhe tinha provocado aquela anomalia no pêlo não era certamente motivo de orgulho. É claro que ao animal não importava a minha curiosidade ou indiferença, mas a dona percebeu. Percebeu que o seu amado animal de estimação, só porque era diferente, era visto como uma aberração, provocava exclamações aos transuentes e era até objecto de registo fotográfico. Pensei que a situação não seria diferente se se tratasse de uma pessoa. De repente imaginei-me no lugar do gato. Será que a situação seria idêntica? Será que as pessoas parariam para ver as minhas anormalidades físicas? Fiquei com imensa pena dele.

O ser humano tem tendência para fazer isto em relação ao seus iguais também. Seria eu capaz de o fazer? Não, não seria. Mas qual é a diferença então? Realmente não sei responder a esta pergunta, ou melhor, sei, era porque ainda não tinha parado para pensar. Aquele gato fêz-me acordar para uma realidade que ainda estava adormecida em mim: não julgues os outros pela aparência, nem mesmo um animal, pois não gostarias que te julgassem a ti. Se hoje coloco aqui a fotografia é apenas para que tenham a ideia do que estou a falar.

Naquele dia, voltei atrás e pedi desculpa à dona.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

As crenças das nossas vidas


Aprendi mais neste último ano que nos anteriores trinta. É claro que não me refiro a ensinamentos académicos, nem tão pouco a cultura geral. Refiro-me a uma aprendizagem íntima e emocional que parece estar a ser incrementada uma velocidade exponencial, que gostava de partilhar convosco.

Aprender só se consegue quando estamos interessados em tal, quando a nossa mente está aberta o suficiente para abarcar novos conhecimentos e experiências, qundo achamos que não sabemos quase nada do que existe para saber e principalmente quando temos a humildade suficiente para aceitar que todos têm alguma coisa para nos ensinar e que tudo o que nos acontece na vida tem uma lição subjacente. A mim, nunca me faltou a humildade, devo confessar que o que me faltou foi a abertura da mente e o interesse em aprender. Considero que fui uma boa aluna, aprendi na perfeição tudo o que os professores me ensinaram nas aulas, assisti a inúmeras formações e aprendi muito a nível profissional. Contudo, isso era o que menos interessava. Não foi isso que contribuiu para a minha felicidade. Não me considerei mais feliz com o nível de cultura que atingi do que antes de me sentar numa sala de aulas. Não nos ensinam na escola o essencial, todas as reformas feitas no ensino até agora visam apenas capacitar o indivíduo para o seu futuro profissional e ensinar-lhe ferramentas com vista à sua insersão na sociedade, de um ponto de vista material. É de todo ignorado o indivíduo enquanto ele próprio, os alunos são vistos como um todo e o tempo e o dinheiro são poucos para lhes oferecer ferramentas para alcançar a sua felicidade. Parece irónico que um estado e sociedade que se preocupam tanto com o futuro não tenha a mesma preocupação com a forma como esse futuro é vivido.

Durante quase toda a minha vida estive presa a crenças sobre mim própria e sobre como deveria ser a minha relação com o mundo, decerto idênticas às de muita gente:
- O teu destino está traçado;
- Os outros são melhores e sabem mais que tu;
- Quanto mais velha uma pessoa é mais sabe da vida e quando se atinge a velhice sabe-se quase tudo;
- Há que duvidar sempre do que os outros dizem porque a vida é uma competição;
- Há que esconder os nossos sentimentos para não nos considerarem fracos;
- Deves ser submisso porque não vais conseguir nada remando contra a maré;
- Deves seguir os outros para que não te julguem diferente;
- O mundo está cheio de desgraças e como tal temos que ver as coisas pela negativa;
- O sucesso está reservado a meia dúzia de felizardos e tu não és um deles;
- Não é o que tu queres que importa mas sim o que está disponível para tu obteres;
- Quanto mais trabalhares, mais dinheiro vais conseguir;
- Etc..

A quantos de vós estas palavras não soam a familiares? Estas crenças moldaram-nos desde que nascemos. A mim, não deixaram que a minha mente estivesse disponível para pensar por mim própria. Impediram-me de acreditar em mim mesma. Mantiveram-me colada a uma triste realidade causada pelas minhas atitudes e pensamentos destrutivos, que eu não tinha forças nem motivação para mudar. É que só se pode mudar quando se começam a pôr em causa todas as crenças em que estivemos a basear a nossa vida. E isso é muito mais difícil do que pensamos, pois uma das funções das crenças é dar-nos respostas para qualquer que seja a pergunta, dispensando assim a nossa análise crítica. Ao longo de toda a nossa vida não estivemos sequer habituados a pensar nelas, sempre foram um dado adquirido, uma verdade imutável. Como poderíamos pô-las em causa?

Quando comecei a ler livros sobre inteligência emocional, cedo percebi que nem sequer sabia identificar as minhas emoções; quando questionei outras pessoas sobre isso, descobri que elas também não sabiam. Reparei que aprendendo a conhecê-las iria alcançar um maior controlo da minha vida. Pela primeira vez questionei se aqueles que nem sequer as sabiam identificar estariam certos acerca de tudo o que me haviam ensinado até então. Pouco a pouco fui pondo todas as outras crenças também em causa. Seria verdade tudo aquilo que me tinham enfiado na cabeça desde que nascera?

Li muito sobre auto-estima, inteligência emocional, atitudes positivas e desenvolvimento pessoal. Comecei a estar atenta às pessoas que eram felizes porque só estas tinham alguma coisa para me ensinar. Aprendi que:

- O destino somos nós que o fazemos, através de cada decisão que tomamos, independentemente da importância desta;
- Eu tenho capacidades e se os outros são capazes eu também sou; posso não saber mais que os outros, mas tenho vontade e procuro a cada passo aprender ainda mais que eles;
- O conhecimento é ilimitado e é arrogância pensar que se sabe quase tudo. O conhecimento é independente da idade e existem vários tipos, não um só.
- A vida não tem que ser uma competição, apenas temos que dar o nosso melhor e desde que o façamos, não temos nada a temer. Se desconfiarmos constantemente dos outros, será que somos de confiança?
- Os nossos sentimentos podem ser escondidos dos outros, mas nunca de nós mesmos. Mesmo assim, partilhá-los leva a criar laços entre as pessoas que de outra forma nunca surgiriam;
- Devemos ser sempre fiéis aos nossos valores, ainda que isso implique lutar contra meio mundo;
- Devemos seguir o nosso caminho, por nós traçado e não o caminho que os outros escolheram, para eles ou para nós;
- O mundo também tem coisas boas a acontecer: temos é que olhar para elas, pois elas estão por todo o lado: se olharmos para o mundo de uma forma positiva vamos estar sempre a deparar-nos com elas;
- O sucesso depende de acreditar. Se acreditarmos o suficiente, vamos ter sucesso;
- O que nós queremos importa. Só assim podemos estabelecer tal como um objectivo a atingir e lutar por ele;
- Não é trabalhando mais que vais conseguir enriquecer: por vezes é parando, levantando a cabeça que se conseguem ver as melhores oportunidades. Não é de dinheiro que falo neste post, mas este princípio aplica-se a todos os aspectos da nossa vida.

Vou continuar a "estudar". Sei que vai valer a pena.

sábado, 8 de agosto de 2009

Hipnoterapia


Considerada uma prática alternativa à terapia tradicional, a hipnoterapia (ou hipnose clínica) tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos entre os que sofrem de problemas psíquicos. O estado hipnótico é um estado alterado de consciência que pode ter vários graus, semelhante aos vários estados que experimentamos durante o nosso dia. É um estado de concentração profunda, no qual a nossa mente está voltada para a sua vida interior. Experimentamos um total relaxamento físico e emocional, em que o cérebro entra em frequência alfa, um estado intermediário entre o sono e a vigília. O paciente está sempre consciente (30 a 40%) e tem poder de decisão. Quer isto dizer que o paciente não fará nem dirá nada que não queira e ao sair do estado hipnótico lembrar-se-à de tudo o que aconteceu. Contudo encontra-se mais sugestionável, daí que este método seja eficaz no tratamento de diversos problemas como adicções, fobias, depressão, insónia, stress e até obesidade ou asma.

Quando a pessoa está hipnotizada, os hemisférios cerebrais atingem uma excelente capacidade de comunicação entre si, facilitando a troca de material psíquico e simbólico entre o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. A acessibilidade ao inconsciente torna-se desta forma mais fácil.

Os nossos sintomas têm a ver com programação. Estamos programados para agir ou pensar de determinada forma. A hipnose actua no sentido de ajudar os indivíduos a desprogramar aquilo que conduz a estados de sofrimento, a eliminar traumas e bloqueios.

É importante que o paciente sinta confiança no terapeuta, pois terá que seguir as suas sugestões. Antes de uma sessão, convém averiguar as suas credenciais. Existe um código de ética e deontológico para estes profissionais (pode consultar em www.bsch.org.uk/code_of_conduct.htm), pelo que os bons profissionais se guiarão por ele, estando sempre o paciente salvaguardado. Contudo, há quem entenda que a hipnoterapia tem perigos. Deixo aqui um site que resume os mais comuns: http://cadernoalfa.blogspot.com/2008/06/o-perigo-da-hipnose.html. Devo contudo salientar que na busca que efectuei através da internet e de outros meios de comunicação a ausência de perigos nesta prática vence com esmagadora maioria.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Calar o sofrimento


Quem sofre depressão ou de outro tipo de patologia do foro psíquico sofre de duas formas: por um lado os sintomas próprios do mal de que padece e por outro do que lhe é causado pela sociedade. Porque a sociedade ainda não aprendeu a aceitar que nem todas as pessoas que sofrem de problemas que não são de origem física, são loucas.

Quem nunca passou por uma situação semelhante quase nunca consegue entender porque é que quem está deprimido não consegue simplesmente deixar de o estar, como se bastasse estalar os dedos para isso acontecer. Por vezes essas pessoas podem ser nossos familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos. Há uma tendência natural em pormos de lado aquilo que não entendemos. É o que acontece com eles. Mas, como se não bastasse, há determinadas pessoas para quem pura e simplesmente não podemos dizer que não nos sentimos bem. Então se esse mal estar for do foro psicológico, ainda menos. É-se rotulado de louco, de instável, de incapaz. O simples facto de entregar um justificativo de falta num emprego, quando se vai a uma consulta, assinado por um psiquiatra, pode levar a questionar se aquele empregado é competente para o cargo que desempenha, se se disser aos amigos que se tem uma obsessão ouve-se logo um borburinho, e por aí fora. A reacção das outras pessoas não é a mesma se se disser que se tem uma broncopneumonia ou se tem uma depressão.

Como fazer então para evitar estas situações? Conheço quem escolha médicos que passam justificativos em nome das clínicas em que trabalham de forma a que a sua especialidade não seja identificável, quem coloque os comprimidos em frascos vazios de outros para a dor de cabeça por exemplo e ainda quem simplesmente finja que anda bem para não ter que consultar um médico ou tomar qualquer tipo de medicamentos. Por vezes temos que contornar os obstáculos que se nos deparam, enquanto a sociedade não "cresce". Contudo, deixar de procurar ajuda não é de todo solução.

A década que corre tem desmistificado muito estas questões. O aumento do número de pessoas com problemas é cada vez maior e o número daquelas que recorre a tratamento. Penso que as pessoas estão a consciencializar-se de que não acontece apenas aos outros e além disso a internet, a imprensa escrita e os media em geral estão a confrontar o seu público com cada vez mais informação acerca destes temas. A informação é a chave para um correcto julgamento, em qualquer situação. Contudo ainda há um longo caminho a percorrer.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Amigos Eternos e Efémeros


Hoje estive na festa de aniversário de um amigo recente onde me encontrei com alguns outros que conheci na mesma data e outras tantas pessoas que não conhecia.

Às tantas, dei comigo a conversar com uma desconhecida que era amiga do anfitrião à quase cinquenta anos. Apontou algumas outras pessoas presentes que estavam na mesma situação dela. Meio século! É uma vida. Lembrei-me dos meus amigos de infância e dos poucos que ainda mantenho. Lembrei-me também dos recentes e de todos aqueles que encontrei ao longo da vida e com os quais já não mantenho contacto. Fez-me pensar no que é que nos leva a manter alguns amigos durante toda a vida, enquanto nos afastamos de outros ou eles de nós.

Não é a distância geográfica, o nível de formação, a profissão que se exerce ou a situação familiar de cada um que define se uma relação de amizade se vai ou não prolongar. Existem amizades duradouras entre pessoas tão diferentes ou mesmo que moram em países distantes enquanto pessoas que vivem quase juntas e têm uma situação de vida muito semelhante não conseguem ser amigas durante muito tempo. Existem até pessoas que quando se conhecem parecem ter tanto em comum, que quase juram que a sua amizade será eterna e no entanto passados poucos anos deixam de se contactar. Não existe nenhum padrão, nenhuma referência que nos ajude a determinar a durabilidade das relações de amizade. O facto é que, a menos que vivamos sempre no mesmo lugar e estejamos em contacto apenas com o mesmo grupo de pessoas, todos nós passamos a vida a fazer amigos, dos quais apenas alguns mantemos.

A definição de amigo varia consoante a personalidade, a cultura, a maturidade e a experiência de cada um. Algumas pessoas vêm um amigo como um prolongamento de si próprio, enquanto outros como um apêndice, outros ainda como um complemento; talvez o que faça falhar algumas relações será a não aceitação pelo outro do papel que descobriu que desempenha perante o amigo. Uma relação para durar, qualquer que ela seja, exige a aceitação da mesma condição pelo outro, é claro que isto também se aplica à amizade. Não é provável que eu seja amigo de alguém que me vê como um prolongamento de si próprio, quando eu apenas o vejo como um apêndice ou complemento. A diferença de visões ou conceitos da amizade pode estar na origem do afastamento das pessoas.

A imaturidade pode também determinar a falência das relações: ser amigo é aceitar as diferenças, saber ouvir, perdoar, estar presente, dar liberdade, ensinar, partilhar. Não podemos pretender que o nosso amigo seja igual a nós, pense como nós ou tenha a mesma opinião. Ele tem o direito de ser diferente, tal como nós. O importante é que apesar disso esteja do nosso lado para nos apoiar, mesmo que pense de forma contrária à nossa, nos ajude a levantar quando, persistindo nos nossos erros, caímos. Temos que ter capacidade de perdoar pois todos nós erramos e temos o direito a uma segunda oportunidade. É importante também que ninguém se sinta aprisionado. Quando sentimos que alguém nos está a prender o nosso instinto é o de procurar liberdade. Por outro lado, transmitir os nossos conhecimentos e partilhar os nossos recursos de forma a ajudar o outro a ultrapassar os seus próprios obstáculos contribui para o seu crescimento e como tal intensifica a amizade. Tudo isto tem a ver com a maturidade do próprio indivíduo, que quanto maior é, mais salutares são as relações que estabelece. A relação pode não durar se um dos intervenientes trair os pressupostos que enunciei no início deste parágrafo.

Aquela máxima de "A friend in need is a friend indeed (um amigo necessitado é um amigo de verdade)" parece apenas referir-se a amigos por interesse. Um amigo de verdade é aquele que o é mesmo que o não possamos ajudar em nada, que o continuará a ser quando já não precise. Porém assiste-se muito a "amigos de ocasião", ou seja, determinadas pessoas que apenas são amigas enquanto se mantém determinada circunstância. Será que podemos chamar a essas pessoas amigas? Será que os amigos que o deixam de ser um dias são todos "amigos de ocasião"? Nem sempre. Muitas vezes a vida torna-nos tão diferentes que os nossos universos se tornam impossíveis de cruzar. O importante é que enquanto são amigos aproveitem ao máximo esse previlégio. Porque a amizade é uma das coisas mais importantes de que algum dia podemos usufruir. Se não se prolongar por algum motivo, que se prolongue ao menos na nossa memória. E vivam as amizades eternas, porque ambos os amigos descobriram o verdadeiro sentido da palavra "amizade".

sábado, 11 de julho de 2009

O "KISS"


Não, não é um beijo. KISS é o acrónimo de "Keep It Simple, Stupid" e "é um princípio geral que valoriza a simplicidade de projecto e defende que toda a complexidade desnecessária seja evitada. Serve como fórmula útil em diversas áreas como o desenvolvimento de software, a animação, a engenharia no geral e no planejamento estratégico e táctico. Também é aplicado na Literatura, na Música e nas Artes em geral. Este princípio teve a sua inspiração diretamente do princípio da Navalha de Occam e das máximas de Albert Einstein ("tudo deve ser feito da forma mais simples possível, mas não mais simples que isso") e de Antoine de Saint-Exupéry ("A perfeição é alcançada não quando não há mais nada para adicionar, mas quando não há mais nada que se possa retirar") (Wikipédia).

Simplificar pode ser a solução para muitos dos nossos problemas. Quantos de nós nos fartamos de queixar pela falta de tempo, pelo cansaço, pela falta de dinheiro, pela falta de amigos...?! E quantas vezes já olhamos bem a fundo para a nossa vida, analisando imparcialmente onde estamos a errar? Se calhar nunca, ou então sempre que o fazemos chegamos à conclusão de que não poderíamos ter feito melhor.

Vivemos na era do consumismo, do comodismo, do egoísmo; vivemos em função da maximização da qualidade de vida sem entendermos muito bem o que isso significa; não entendemos que muitas das coisas que temos são supérfluas, aprisionam-nos e exigem de nós muito mais do que o prazer ou benefício que nos dão em contrapartida.

Vou analisar aqui uma situção concreta: Paula e Mário, ambos advogados, pais de um filho adolescente, viviam numa casa de cinco assoalhadas, ar condicionado e música ambiente, uma televisão em cada assoalhada, com mais de cem canais, três casas de banho, janelas automáticas entre outras comodidades. Tinham a casa dos seus sonhos, num condomínio fechado, com piscina, três elevadores. Para pagar o empréstimo do banco e para manter a casa necessitavam de uma avultada quantia de dinheiro todos os meses. Para o efeito, começaram ambos a aceitar mais casos. O tempo era pouco e como tal tiveram que contratar uma empregada. Contudo isso ainda acresceu mais as despesas e tiveram que trabalhar durante o Sábado. Como prometeram ao filho umas férias em Bora Bora, começaram a trabalhar também ao Domingo.

Não passavam tempo quase nenhum em casa; estavam constantemente cansados e Mário começou a sofrer de hipertensão; o filho passava o dia ao computador e não estudava, estando em vias de reprovar nos exames. Paula tinha tudo o que sempre ambicionou, no entanto não se sentia feliz.

Certo dia chegou a casa, sentou-se no sofá, pegou no comando, ligou a televisão da sala e pela primeira vez num mês preparou-se para assistir a um filme. Apercebeu-se de que tinha tantas televisões, tantos canais, mas não tinha tempo de ver nenhum deles, o mesmo acontecendo com o marido e o filho, que preferia a internet. Levantou-se e deu um passeio pela casa. Há meses que não entrava ninguém no quarto de hóspedes, não tinham tempo para receber ninguém em casa. Olhou pela janela e viu a piscina onde já não punha os pés há meses. Havia sempre tantas contas a pagar, tanto trabalho a fazer... Uma casa assim dá muitas despesas. Então Paula deu-se conta de que estava a trabalhar para o boneco. Estava a trabalhar para financiar algo de que não podia usufruir; deu-se conta de que apesar de ter tudo o que sempre quis ter, não tinha o que verdadeiramente lhe interessava: passar tempo em família, estar com os amigos, divertir-se.

Foi então que, em conjunto com o marido e o filho tomaram uma decisão: mudar para uma casa mais pequena, na periferia. Não tinha nem metade das comodidades que aquela tinha, mas de que interessava tê-las se não podiam gozar delas? Dispensaram a empregada e Paula passou a assumir as tarefas da casa. Três assoalhadas mais pequenas eram suficientes para todos. Uma televisão na sala com um pacote mínimo e um sofá-cama que servia perfeitamente para transformar a sala em quarto de hóspedes caso houvesse algum. Não tinham música ambiente nem janelas automáticas, nem piscina, mas no final todos sentiram que valeu a pena a mudança.

A renda diminuiu, bem como os custos de electricidade, condomínio, entre outros. Isto fez com que tivessem que trabalhar muito menos e poder assim passar mais tempo uns com os outros; apenas uma televisão na sala contribuiu para aproximar a família; começou a haver tempo para conviver com os amigos, o que os alegrou imenso; no final ainda sobrou dinheiro para fazerem aquela viagem a Bora Bora que andavam à tempo a prometer ao filho.

Simplificar mudou a vida desta família. A adaptação foi difícil, ao princípio acharam que apenas iam ganhar desconforto, mas a verdade é que o nível de felicidade aumentou.

Complexidade gera complexidade e às tantas esta complexidade atrofia, aprisiona. Esquematizar a vida de forma simples torna os objectivos mais possíveis. Estabelecer como prioridade objectivos imateriais em vez dos materiais faz com que seja necessário muito menos esforço, faz com que os últimos percam importância face aos primeiros, o que contribui para o reforço de valores como a amizade, a família, o altruísmo, pois procurar a felicidade nas coisas simples é muito mais satisfatório e fácil de atingir do que nas mais complexas; ter muito é apenas satisfazer caprichos, quando nos basta tão pouco para termos o que realmente importa. Por isso, aproveite e KISS....

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Identidades Falsas


A maioria de nós nasce e morre transitando por esta vida como se de um palco se tratasse. Porque somos todos actores, não só porque representamos papéis, mas porque usamos máscaras que nos transformam naquilo que queremos ou aprendemos a ser.

Desde o momento em que nascemos que estamos sujeitos ao processo de socialização, que muitas vezes se inicia no acto de cortar o cordão umbilical. A partir daí são-nos ensinados valores, códigos de conduta e aplicados castigos a comportamentos considerados desviantes pela sociedade. Quando nascemos, a nossa mente está vazia. Começamos a enchê-la com o que temos ao nosso redor, aprendemos e apreendemos aquilo que nos facultam, que será o que vigora na sociedade e na época em que vivemos. Mais tarde, quando começamos a ter capacidades para agir por conta própria, fazêmo-lo nos limites daquilo que nos é permitido, que aprendemos como sendo certo ou errado e enraizamos fortemente na nossa consciência.

Aquilo que somos hoje, não é mais que massa moldada na mesma forma onde o foram todos os membros da sociedade em que vivemos: a língua que falamos, o vestuário que vestimos, as leis a que obedecemos, etc.. Consoante o lugar e o tempo assim esta moldagem é mais ou menos rígida, mas o facto é que nos tormamos não naquilo que verdadeiramente somos, mas naquilo que a sociedade espera que sejamos, sob pena de sermos considerados marginais e de nos serem aplicadas medidas de coacção que variam desde a simples reprovação a penas de prisão.

Representamos diariamente papéis: somos pais, filhos, professores, alunos, jardineiros, economistas, compradores, vendedores, velhos, jovens... Todos estes papéis têm características comuns e únicas que os tornam perfeitamente definidos: todos os pais se comportam de determinada forma que não se coaduna com o comportamento dos seus filhos, ou mesmo deles próprios enquanto filhos, o mesmo acontecendo com os alunos e professores, com os velhos e com os jovens. É esperado que se actue de acordo com o papel que se detem e normalmente sabemo-lo de cor, pois levamos a vida a aprender como o representar.

Mas mais do que aprender comportamentos, aprendemos o conceito do certo e do errado, do bonito e do feio, do bom e do mau, do rude e do elegante, etc.. Moldamos a nossa consciência de forma a tornar-se parte de uma muito maior, a da sociedade como um todo. Deixamos de poder ser apenas um indivíduo para passar a ser uma célula de um corpo único, do qual fazem parte outros seres humanos. O que seríamos se fossemos nós próprios? Ou melhor, o que é ser nós próprios? Será que em alguma circunstância estivemos livres da influência do que aprendemos?

Porém, todo o ser humano existe individualmente. Existe algo que ainda se mantém intacto dentro dele: a sua identidade. O que acontece é que na maioria das vezes está adormecida, foi chutada para o fundo do nosso ser e é tão constantemente empurrada para dentro pelo nosso consciente que nos esquecemos de qual ela é. Pensamos até que somos aquilo que aparentamos ser, enganamo-nos a nós mesmos. Muitas vezes a nossa verdadeira identidade é tão diferente daquela que ostentamos que se gera um conflito com consequências nefastas como depressões, doenças somáticas, desiquilíbrios emocionais e comportamentos considerados desadequados pelas normas sociais em vigor. É que geralmente o inconsciente tem mais força que o consciente e aquilo que empurramos para o dentro é repelido para fora com maior intensidade. Mas na medida em que não aprendemos a lidar com isso, nem sequer sabemos interpretar o que nos está a acontecer. Então recorremos a terapêutas, tomamos medicamentos, procuramos conselhos de amigos, etc, sempre na tentativa de repôr a normalidade, quando por vezes a normalidade que ambicionamos é construída com base numa identidade falsa. Recusamo-nos a deixar a máscara que vestimos, pois não sabemos viver sem ela. Por isso somos toda a vida actores, mesmo sem termos consciência disso. E dizem algumas pessoas que não têm veia artística!!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Agir faz acontecer

Sempre que existe uma acção, existe movimento. Agir significa fazer alguma coisa. Sempre que damos um passo, tomamos uma decisão, apagamos um número de telefone ou simplesmente aceitamos interiormente determinado facto, estamos a empreender uma acção. Não temos obrigatoriamente que fazer grandes coisas, por vezes as mais pequenas têm a mesma ou maior importância. A verdade é que sempre que passamos da inércia à acção fazemos algo acontecer, quer directa quer indirectamente.

Quantas vezes não nos aconteceu passarmos a tarde inteira à espera de um telefonema e justamente quando decidimos não esperar mais, eis que o telefone toca? Ou então quando finalmente decidimos entregar aquele currículo para o emprego que tanto ambicionamos, nos liga um amigo que não víamos à muito tempo, simplesmente porque se lembrou de nós? Estas coisas não acontecem por acaso nem há magia ou qualquer força oculta por detrás. Somos nós mesmos que fazemos as coisas acontecerem, ainda que o nosso acto em nada tenha a ver com o que acontece de seguida. Enquanto estamos indecisos, parados, é como se estivessemos a bloquear a energia positiva que acciona os mecanismos do universo que favorecem o desencadear dos bons acontecimentos. Isto não tem nada de esotérico, é uma constatação. A energia de que falo não é mais do que aquela que existe dentro de cada um de nós e que influencia tudo à nossa volta. Criamos coincidências, pode-se dizer, ainda que as atribúamos a causas externas. A nossa interacção com tudo o que nos rodeia permite influenciar positiva ou negativamente os acontecimentos, bem como o momento em que eles ocorrem. Porque fazemos parte de um todo, de uma rede global, não somos ilhas.

Tal como o bater das asas de uma borboleta na Europa pode causar um tornado na América, também tudo o que fazemos e pensamos por mais insignificante que seja tem consequências. Se até o simples facto de existirmos altera o universo, quanto mais não seja estatísticamente, porque não hão-se as nossas acções provocar outras acções?

A inércia não faz bem a ninguém e em determinados momentos da nossa vida ela é simplesmente tóxica. Por exemplo, quando estamos deprimidos, combatê-la pode significar desencadear processos que nos levem a sair dessa fase. Se eu pintar os olhos antes de sair para o trabalho hoje, posso pensar que não estou a fazer nada de especial. Eis o que pode acontecer: a consequência mais directa, ainda que eu não me aperceba dela, é a melhora da minha auto-estima. Por pouca que seja essa melhora, a verdade é que irei enfrentar o dia que tenho pela frente com um pouco mais de boa disposição. Por mais leve que seja a diferença, alguém o irá notar, ainda que inconscientemente e, por exemplo preferir-me a mim em vez de outra pessoa para fazer a acta da reunião, que por acaso é uma coisa chata. Porém eu aceito. A minha presença na reunião faz com que, pela percepção de um elemento novo, a mesma corra melhor e os directores sairão dela mais animados. Então, na hora de decidir o aumento do ordenado do pessoal da empresa, a sua decisão é positiva. É claro que as coisas não se passarão exactamente desta forma, mas é um exemplo de como subtilmente as nossas acções provocam os acontecimentos, por vivermos num mundo interligado.

Mas há ainda outra coisa que pode acontecer: desencadearmos acontecimentos que não estão nem directa nem indirectamente relacionados com as nossas acções. É o caso por exemplo de eu pintar os olhos hoje antes de ir para o trabalho e me sair a loteria. Desencadeei a sorte! Porque a sorte percorre canais de energia, que quando é negativa lhe são bloqueados. Agir faz com que a nossa mente fique mais aberta e mais receptiva, afastar a inércia alarga o espaço dentro de nós para podermos receber coisas boas, porque ela mesmo ocupa muito espaço como se de uma coisa ou um sentimento se tratasse.

Não podemos pensar no ser humano isoladamente, nem no espaço ou no tempo como algo definido e imutável. Temos que pensar no universo como um todo e que tudo, mas mesmo tudo, interage com tudo. Acredito que um dia esta teoria ainda será aceite por todos como uma lei da física.

domingo, 31 de maio de 2009

O hábito de sentir

Hoje aconteceu-me uma coisa estranha. Reparei que tinha um vale que me tinha sido oferecido no natal para descontar em compras que estava a terminar o seu prazo de validade. Decidi gastá-lo no supermercado, considerando-o como um bónus, que iria aumentar o meu dinheiro disponível para efectuar as minhas compras.

Entrei no estabelecimento pensando que poderia comprar produtos de melhor qualidade e ainda algo extra. Comecei a percorrer as prateleiras e a colocar no cesto as coisas de que necessitava. Quando estava quase no fim, ao pegar numa lata de cerveja apercebi-me, espantada, que apesar de o meu dinheiro disponível ser superior ao normal, inconscientemente fui levada a escolher exactamente os mesmos produtos que comprava anteriormente: os mais baratos, embora de marcas diferentes. O meu cabaz era pobre e sobrava-me ainda muito dinheiro para gastar. Fiquei frustrada, porém em vez de ir trocar os produtos decidi guardá-lo para futuras ocasiões.

Podemos fazer uma analogia entre os produtos do supermercado e as nossas emoções. O que se passou comigo hoje passa-se com cada um de nós relativamente ao que sente. Na verdade, ainda que a nossa vida tenha mudado, que tenhamos todas as razões para sermos felizes, estamos habituados a "escolher" as mesmas emoções negativas que em tempos mais difíceis. Quantas vezes nos foi dado um aumento de ordenado que há muito ambicionávamos ou encontramos a pessoa amada e damos por nós a experimentar o mesmo medo, a mesma raiva, o mesmo ódio? Isto deve-se ao hábito. O nosso cérebro habituou-se a criar sempre as mesmas sinapses, abriu e alargou os caminhos para as essas emoções, enquanto os que levam á alegria estão cheios de ervas e pedras, muitas vezes é difícil perceber que ali existiu em tempos uma estrada. É difícil mudar, bem tentamos mas voltamos ao mesmo. Ficamos frustrados e no fim, sobra-nos ainda tempo que podíamos gastar na emoção "alegria", mas decidimos guardá-lo para quando os filhos crescerem, quando tirar a carta, quando fôr rica...

Muitas pessoas confundem emoções com sentimentos. No dicionário Petit Robert encontramos a seguinte definição de emoção: "Estado afectivo intenso, caracterizado por uma brusca perturbação física e mental onde são abolidas, na presença de certos estímulos ou representações muito vivas, as reacções apropriadas de adaptação ao acontecimento". O Petit Larousse acrescenta ainda: "Perturbação passageira provocada pela alegria, a surpresa, o medo, etc". Isabelle Filiozat define-a como "um movimento em direcção ao exterior, um impulso que nasce no interior de nós próprios e que fala ao que nos rodeia, uma sensação que nos diz quem somos e nos coloca em relação com o mundo". Esta psiquiatra e escritora francesa diz-nos ainda que todos os seres humanos, indempendentemente da sua raça, sexo ou idade as vivem da mesma maneira.

Cada emoção dura apenas alguns segundos. Se dura horas, não é emoção mas humor. Quando dura semanas já não é humor mas perturbação afectiva. Em contrapartida os sentimentos são duradouros.

Ao contrário dos sentimentos que podem ser inúmeros, existem apenas cinco emoções de base, embora alguns entendidos na matéria conseguem distinguir algumas mais. São elas a cólera, o medo, a tristeza, a alegria e o desgosto. Podem acrescer a estas a culpabilidade, o desespero, a raiva, a inveja, o ciúme, a surpresa, a excitação, a ternura, o amor. As emoções são biológicas, pulsionais, enquanto os sentimentos são elaborações secundárias porque são mentalizadas. Os sentimentos prolongam-se no tempo e geram ou são alimentados por emoções.

Ter consciência das nossas emoções, saber distingui-las dos sentimentos e conseguir identificá-las é uma forma de levar o nosso cérebro a deparar-se com mais hipóteses na altura de "escolher". É preciso persistência para mudar hábitos tão profundamente enraízados. Eu diria mesmo que é preciso coragem. A maior parte das pessoas acomoda-se, passa uma vida inteira infeliz à espera de um milagre que lhes limpe as estradas que levam a emoções positivas para então poderem desfrutar da alegria.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Teoria da Relatividade

Pequeno ou grande, mais ou menos, lento ou rápido, etc, só faz sentido quando haja um factor de referência em relação ao qual se possam fazer comparações. A Teoria da Relatividade de Einstein vigora não só na física mas em todas as dimensões da nossa vida (adaptada, claro está). Quer isto dizer que se compararmos, tudo fica mais fácil.

Relativizar é uma forma de combater a depressão. As pessoas deprimidas tendem a dar muito ênfase aos seus problemas, a dar demasiada importância a pormenores e a ter a ideia de que sofrem mais que os outros. Focalizam-se demasiado em si mesmas e abstraem-se do resto do universo. Desta forma, eliminam inconscientemente o factor de referência e abstêm-se de fazer comparações correctas. Toda a sua atenção está virada para si mesmas e mergulham em pensamentos pessimistas, atitudes negativas e sentimentos de culpa e de inferioridade. Mas há uma forma de mudar as coisas: comparar.


Quantas vezes não nos fartamos de chorar porque não somos amados, somos feios, não temos sucesso, etc.? Temos que perguntar, pois, qual o factor de referência que usamos para chegarmos a tal conclusão. Muitas pessoas não usaram nenhum, outras usaram modelos de topo para o fazerem. E que tal pensar em todas as pessoas que estão em pior situação que nós? Não temos um grande amor? Tivemos certamente uma mãe, um pai ou um irmão que nos amou muito. Há quem nem isso tenha tido; temos um nariz grande? Pelo menos situa-se dentro da normalidade. E aqueles que nasceram com uma qualquer deficiência física?; Estamos desempregados e sem dinheiro para ir ao supermercado? Pelo menos temos um tecto, água para beber e alguma roupa para vestir. Vemos todos os dias pessoas que não têm mais que a rua para dormir e vivem da esmola alheia. Quem somos nós para nos deprimirmos alegando razões tão fúteis?! Porque são razões fúteis se não as compararmos só com os melhores, os que têm mais ou os que são mais que nós.


Para sermos justos, temos que alargar a nossa comparação a todos aqueles que são piores, que têm menos ou que são menos que nós. Existem no mundo inteiro provavelmente mais pessoas em piores condições do que em melhores. Além disso, não passamos de seres minúsculos quando pensarmos na vasta dimensão do universo que nos rodeia, um grão de pó entre o pó das estrelas de que somos feitos. Somos apenas isso e nada mais. Pó de estrelas que um dia se transformou em vida e donde brotou consciência. Vale a pena pensar nisto!

sábado, 9 de maio de 2009

Feel the fear and do it anyway!

Susan Jeffers no seu livro "Feel the fear and do it anyway" (em português "Sentir o medo e avançar à mesma"), sustenta a tese de que o medo de qualquer coisa não é mais do que o medo de não a conseguirmos suportar. Se soubessemos que conseguiríamos suportar tudo o que nos possa acontecer na vida, não sentiríamos medo.

A palavra suportar leva a pensar em pessoas fortes, que conseguem vencer tudo e todos. Não é verdade. Neste contexto parece ter mais a ver com a inteligência em lidar com as situações do que com força. Se pensarmos bem, todos os nossos medos e receios têm subjacente a ideia de incapaciade. Por exemplo, quando alguém diz "Tenho medo de conduzir!", provavelmente não é de pegar num volante e manobrar um carro que estas pessoas receiam, nem sequer de sofrer um acidente por mais desagradável que isso seja: do que elas realmente têm medo é de não conseguir suportar as consequências de um possível acidente e os danos físicos e psicológicos que daí possam advir. O objecto do nosso medo é normalmente algo a cujas consequências damos demasiada importância, sentimo-nos impotentes para ultrapassar e a imaginação demasiado fértil leva a prever um futuro após demasiado aterrador e irreversível. Para algo de tais dimensões, não há manual ou conselho que nos valha. Sentimos que não controlamos os acontecimentos, porque não sabemos ou não podemos, e como tal não conseguimos lidar com eles.


O maior de todos os medos é o medo de ter medo. Mas não se baseia o medo já no próprio medo? Ou seja, se temos medo de ratos, não devemos antes pensar que aquilo que nos assusta realmente é o medo de não conseguir lidar com a sensação desagradável que nos causa a presença desses animais? Os objectos, os acontecimentos, as pessoas, não são causa de medo. A causa do medo é outro medo, o medo de não sabermos ou conseguirmos lidar com os nossos sentimentos e emoções. Mesmo a morte, que assusta quase toda a gente, é uma máscara para aquilo que realmente receamos. A possibilidade do fim da nossa existência física - e para muitas pessoas mais do que isso - leva a pensar no que foi a nossa vida, se a vivemos bem, se estamos a seguir o caminho certo, e provavelmente naquilo que haverá depois. Por um lado há que lidar com as nossas emoções e sentimentos (a frustração, a culpa, deixar assuntos inacabados, etc), e por outro enfrentar o desconhecido. A verdade é que não sabemos como lidar com estes dois assuntos. O nosso verdadeiro medo é o medo de não conseguirmos lidar com estes factos e não a própria morte. A partir do momento em que acreditamos que conseguimos enfrentar tudo o que nos apareça pela frente e de lidar com os nossos próprios sentimentos, a maioria dos nossos medos desaparecerá.


A ideia de valentia e coragem que temos de quem não tem medo por vezes pode estar totalmente errada. Por vezes quem não tem medo é porque não pensa, enterra a cabeça na areia ou não tem consciência das consequências dos factos. Há que estar consciente das consequências, do que nos espera no futuro. Porém, há que acreditar que aconteça o que acontecer, haveremos de saber lidar com a situação e ter fé em que a conseguimos superar.


sábado, 21 de março de 2009

O gancho do céu ou o efeito placebo


Era uma vez um patinho de nome Peninha que nascera junto de um lago tranquilo e sereno, juntamente com mais cinco irmãos. A mãe pata cuidou deles em terra desde que saíram dos ovos até terem mais algumas penas, levando-lhes grãos para se alimentarem e tudo o que demais precisavam. Certo dia, chegou a altura de os patinhos irem para a água e começarem a nadar, como acontece com todos os patos. Todos seguiram de imediato a mãe, abeiraram-se do lago e viram a sua imensidão e profundeza. A mãe explicou como se fazia e cinco deles não tiveram o menor receio e deslizaram suavemente atrás da progenitora, nadando alegremente. Porém, Peninha olhou para baixo e conseguiu ver o quanto fundo o lago era. Uma dúvida de imediato surgiu no seu íntimo:

- E se eu não conseguir nadar e me afundar? Vou-me afogar...

O seu coração começou a bater mais depressa, uma onda de ansiedade percorreu todo o seu corpo e recuou. Viu a sua mãe e os seus irmãos a afastarem-se e ficou na margem, angustiado.

Nos dias seguintes aconteceu o mesmo, e por mais que a mãe se esforçasse por lhe explicar todas as técnicas, ele pensava sempre na possibilidade de alguma delas falhar e ir parar ao fundo do lago. Até que a mãe, desolada, desistiu.

Um dia, ao passar pela margem, um velho pato viu Peninha muito triste a olhar para os seus irmãos que se afastavam nadando alegremente e perguntou qual a razão da sua tristeza.

- Tenho medo - respondeu - que me afunde e me afogue.

O velho começou a rir de tão grande disparate que acabara de ouvir. Depois parou de repente, ao lembrar-se dos vários medos que lhe tinham surgido ao longo da vida, alguns deles infundados, e calmamente disse a Peninha:

- Já sei como resolver o teu problema: o que tu precisas é de um gancho.

- Um gancho? - Perguntou, incrédulo Peninha.

- Sim, um gancho que te prenda ao céu enquanto nadas. Assim, terás sempre a certeza de que não te afundarás, pois o gancho impedir-te-há, pois está preso ao céu. - Pegou num galho que se encontrava próximo, virou-o ao contrário, fingiu que o enganchava no céu e entregou a ponta a Peninha. - Agora lança-te à água! Vai confiante, pois o gancho não te deixará afundar!

E assim fez o jovem pato. E ao contrário daquilo que imaginava, flutuou lindamente, aplicando as técnicas que a mãe lhe tinha ensinado, e segurando no ar o galho que o velho lhe tinha dado. É claro que todos acharam estranho, mas o pequeno pato estava tão confiante que nadava ainda melhor que todos os outros.

Certo dia enquanto nadava agarrado ao seu gancho do céu, passou uma cegonha e achou aquele pedaço de madeira ideal para construir o seu ninho. Assim, rasando as águas, tirou-o da mão de Peninha, mesmo no meio do lago. Este ficou tão surpreendido com a atitude da cegonha, que ficou alguns minutos a olhar para ela enquanto voava em direcção ao seu ninho. Quando regressou a si, apercebeu-se que estava a nadar sem suporte, ou seja, mesmo sem estar preso ao céu, conseguia nadar perfeitamente.

O velho, que observava tudo da margem apenas comentou:

- Ora não fosse eu o médico dos patos! O efeito placebo é mesmo muito poderoso!!

sábado, 14 de março de 2009

Tomar Medicamentos e Trabalhar


A depressão impede-nos por vezes de trabalhar ou de assistir às aulas. Para que possamos levar uma vida normal tomamos medicamentos. Mas como vivemos depois o nosso dia a dia sob o efeito desses medicamentos?


Cada medicamento produz os seus efeitos secundários específicos e cada pessoa reage ao mesmo de forma única. Porém, a sonolência, excitação, secura de boca, desconcentração, tonturas e outros podem ser alguns dos mais incomodativos. Muitas pessoas, após um período de interrupção no trabalho ou estudos regressam e procuram ter uma vida o mais normal possível, como é suposto ser o objectivo das terapias anti-depressivas. Porém confrontamo-nos muitas vezes com as exigências das nossas tarefas e os efeitos secundários dos medicamentos que tomamos. Para quem trabalha num escritório por exemplo, sentado todo o dia a uma secretária a executar tarefas rotineiras, o sono ataca quando não é de todo desejado e é por vezes muito difícil fazê-lo ir embora, por mais cafés que se tomem; outro exemplo é a falta de concentração nos estudantes quando assistem a uma aula e nada lhes ficou na memória, ou as tonturas para um construtor civil que trabalha em edifícios altos. Poder-se-ia dizer que pessoas com estas profissões deviam ficar de baixa até que terminassem a medicação. Mas na sociedade em que vivemos, pelo menos a portuguesa, ficar de baixa muito tempo por vezes implica a perda do emprego. Além disso muitas pessoas têm que tomar este tipo de medicamento praticamente toda a vida e não querem nem podem abdicar da vida activa tão precocemente.


Trabalhar pode-se tornar difícil nestas condições. O pior é que muitas vezes o chefe também nota e das duas uma: ou conhece a situção e entende-a, ou simplesmente atribui àquele funcionário o rótulo de ineficiente ou improdutivo. Muitas vezes até conhece as causas e simplesmente não aceita que algum seu subordinado possa ter problemas psicológicos, devido ao estigma de loucura que ainda se associa a isso. Quer por uma razão ou por outra não é fácil trabalhar sob o efeito de medicamentos ansiolíticos ou antidepressivos, nem é aconselhável ficar em casa a curar uma depressão, não só porque por vezes o isolamento e a inactividade pode até acentuá-la mas sobretudo devido à realidade que temos no emprego em Portugal.


Algumas pessoas optam por vezes por nem sequer consultarem um terapeuta, com medo das consequências de que falei. Então a situação vai-se agravando até culminar numa depressão grave que poderia ter sido travada a tempo de evitar chegar a tanto e muito sofrimento teria sido evitado. Esperamos que haja mais compreensão por parte da classe empregadora, menos estigma relacionado com o tema e cultura - acho que é uma questão de cultura - em relação a toda a sociedade, para que não associem imediatamente as palavras "psicólogo", "psiquiatra", "anti-depressivos", "ansiolíticos" e outras semelhantes, a "loucura".

domingo, 1 de março de 2009

Medo do Sucesso

Desde as tarefas mais insignificantes das nossas vidas até às maiores, todos dizemos que ambicionamos o sucesso. Porém, por vezes falhamos justamente naquilo onde julgamos ser mais importante para nós alcançá-lo. Sentimos que nos esforçamos tanto, que concentramos todas as nossas forças naquele objectivo concreto e no entanto, na hora H, surge algo que compromete os resultados, culminando em fracasso todo o nosso empenho. Por vezes situações destas ocorrem repetidas vezes ao longo das nossas vidas e chegar ao "quase consegui" parece constituir uma espécie de padrão. Temos consciência que trabalhamos arduamente para o fim a que nos propusemos, não faltaram apoios, porque falhamos então? Culpamos a falta de tempo, a constipação que surgiu à última da hora, o transito, a chuva... tudo, excepto nós mesmos. Não temos consciência que por vezes, somos nós próprios que criamos aquilo que grandiosamente nos levaria ao sucesso, mas que inconscientemente abortamos todas as possibilidades de esse momento ocorrer.

Parece contraditório querermos tanto algo e sabotarmos os nossos próprios planos. Afinal de contas, não temos culpa de adoecermos ou de ter havido um acidente que empatou o trânsito. Isso não depende de nós, pensamos. Mas a história não é bem assim. Imaginemos alguém, vamos chamar-lhe João, que trabalhou durante seis meses num projecto que tinha que apresentar numa reunião da qual dependeria o aumento do seu salário e categoria profissional dentro da empresa onde trabalha.

O nosso inconsciente trabalha de forma independente, não é comandado pela nossa vontade explícita. É um armazém de dados e gere a informação baseada nos mesmos, aqueles que a mente consciente já se esqueceu ou nem sequer se apercebeu de que existiram. Tem um poder incrível para agir por detrás do pano. Por isso não nos apercebemos da sua actuação.

Voltando ao caso de João. Na véspera da reunião apanhou uma constipação que o deixou rouco. Apesar de tudo, resolveu ir na mesma. Meteu-se no carro e deparou-se com uma fila de trânsito enorme que lhe gorou todas as perspectivas de chegar à hora agendada. Parece apenas uma questão de azar. Mas analisando bem as coisas, o azar por vezes não chegar para justificar todos os fracassos.

João de uma família onde o pai era demasiado autoritário e a mãe demasiado submissa, onde sempre foi tratado como um bebé, apesar de ter crescido, ser muito inteligente e ter imensas capacidades. Contudo, nunca foi elogiado pelos seus sucessos, nem mesmo os maiores, e sempre lhe apontaram os erros e os pontos fracos de forma demasiado frequente e destrutivamente crítica. "Tu não és capaz", "Não te vão escolher", "Não sabes nada da vida"... foram frases como estas que João ouviu toda a sua vida. Por mais que actualmente pense o contrário, o seu inconsciente registou estas ideias negativas e no momento de tomar uma decisão, influenciam o resultado. Ele não se apercebeu, mas foi o seu inconsciente que debilitou o seu sistema imunitário, justamente numa altura crucial, de forma a que ele facilmente contraísse uma constipação. Por outro lado, na altura de iniciar a viagem, dirigiu o seu pensamento para todo o lado excepto para aquele que mais interessava no momento: fez com que se "esquecesse" de verificar as notícias sobre o trânsito e procurar caminhos alternativos de forma a evitar a fila e chegar assim a horas. Em vez de culpar o azar pelo sucedido, se há culpados, é o próprio João. Mas é claro que ele não sabe que foi o responsável por impedir o seu próprio sucesso.

Porque fez isso? Porque haveria alguém de trabalhar tanto para no último minuto deitar tudo a perder? Não acreditar verdadeiramente em si e ter medo do próprio sucesso. Medo de não saber lidar com ele. Porque toda a vida nunca foi os seus pequenos (e grandes) sucessos foram esquecidos, porque passou a acreditar no seu íntimo que não seria capaz. Ascender a um nível superior (como no caso de João a uma superior categoria profissional) acarreta também mais responsabilidades, a atenção recai mais sobre si. Pessoas como o João habituaram-se a viver na sombra, não gostam muito das luzes da ribalta e facto de terem interiorizado aquelas frases que repetidamente ouviram dizer dos seus pais ou familiares directos criaram nelas um medo de subir os degraus que levam ao sucesso. Por isso, por mais que conscientemente lutem contra isso, o seu inconsciente mexe os cordelinhos de forma a abortar os seus planos.

O João personaliza muitas pessoas anónimas que provavelmente nesta altura estão a ler este post. É difícil acreditar que o que estou a escrever aqui seja verdade, mas é-o de facto. Pode haver mais razões para que isto aconteça, como a previsão das consequências em relação por exemplo a uma mudança de local, o sentimento de culpa, etc. Mas vale a pena pensar sobre isso e em vez de culpar o azar pelos nossos fracassos, revermos o nosso inconsciente e começarmos por "tratá-lo" antes que ele nos trame outra vez.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Abdicar do prazer?

Decerto algumas pessoas com depressão já tomaram determinados anti-depressivos que as ajudaram imenso a retomar a vida normal e ver de novo a vida a cores. Contudo, de entre os efeitos secundários desses medicamentos, é comum encontrarmos o aumento de peso e diminuição da líbido. Olharmo-nos ao espelho e vermo-nos gordos ou experimentar uma roupa e esta não nos servir não nos faz sentir bem. Temos que aprender a viver com isso, podemos fazer algum exercício para compensar, fazer dieta, enfim. O pior é quando se trata da diminuição da líbido. O que podemos fazer quanto a isso? Um exemplo típico de uma das substâncias de que falo é a paroxetina, mas há muitas outras. Realmente sentimo-nos melhor a nível geral. Mas e o prazer do corpo? Em que lugar fica? Pagamos o bem estar a outros níveis com a diminuição da líbido, por isso estamos a trocar um prazer por outro. Resta saber qual deles é o mais importante, ou se é possível estabelecer um grau de importância para estes prazeres. Afinal o desejo sexual contribui para o bem estar geral. Teremos que viver sem uma parte desse bem estar.


É claro que seria pedir demais que os medicamentos para a depressão - como qualquer outro - não tivessem efeitos secundários. Falo neste especificamente porque me parece contraditório tendo em conta o objectivo para que é prescrito. Além do mais, vai muito mais longe do que o próprio prazer individual do corpo. Imaginemos que a pessoa que toma o medicamento é recém-casada. A diminuição da líbido neste caso pode funcionar como desestabilizador do casamento. É uma situção difícil de contornar, já que é impossível obter os benefícios sem custos, ou seja, neste caso, ter medicamentos sem efeitos secundários.


Devemos então esperar curar-nos da depressão para arranjar um(a) namorado(a) por exemplo? É certo que não devemos tomar grandes decisões na nossa vida enquanto estivermos deprimidos, mas o que referi parece ridículo. A solução passa pela prescrição de outro medicamento que não tenha este efeito, em sua substituição? E se este for o indicado? Encontramos várias perguntas sem resposta sobre as quais se calhar nunca nos detivemos a pensar. A verdade é que tal como no caso do aumento de peso, temos que encontrar formas de contrariar este efeito. Alguma sugestão? Se alguém tiver, por favor diga...

sábado, 31 de janeiro de 2009

O que nos faz escolher de quem nos aproximamos?


De entre as últimas pessoas que conheci, uma delas destacou-se e dei-lhe mais atenção do que às restantes. Sempre que conhecemos alguém fazemos imediatamente, consciente ou inconsciente uma avaliação e com base nela investimos ou não, se se proporcionar, numa aproximação. Muitas podem ser as razões que fazem isso acontecer, mas a verdade é que todas elas estão relacionadas com o universo pessoal do avaliador. As regras não são universais. Muitas vezes vemos no outro uma semelhança connosco, criando desta forma empatia, outras é o aspecto físico ou o humor que faz valer os seus trunfos, outras ainda, o que nos aproxima é a oposição, ou seja, o outro é o oposto daquilo que somos, daquilo que vivemos.


No meu caso particular, reconheço que o que me aproximou foi o facto de encontrar naquela pessoa uma forma positiva de estar na vida, o facto de perceber que aquele ser humano estava a viver as suas experiências, decerto semelhantes às de qualquer outro, inclusivé as minhas, com uma atitude construtiva, de não estar preso ao passado, de viver os momentos no presente, de ter a cabeça no sítio onde está o corpo, de acreditar que o futuro será sempre melhor que o presente. Isto parece á partida dever corresponder à forma como qualquer pessoa vive a vida, mas a verdade é que poucos de nós conseguimos fazê-lo. Há sempre algo que nos puxa para trás, que não nos deixa ser felizes, tememos o futuro. Além disso, quantos de nós acreditam?


Acreditar dá-nos força uma incrível, uma energia que se manifesta no brilho do olhar e que é visível; ser positivo é sinónimo de auto-confiança e quem a tem transpira-a; viver no presente e com a cabeça no sítio do corpo é sinal de inteligência emocional e manifesta-se em cada gesto, em cada palavra. Esta pessoa, com todas estas características, representa, para a minha escuridão, um raio de luz. Para quem vive numa nuvem negra, habituamo-nos a encontrar pessoas como nós: negativas, pessimistas, com baixa auto-estima, inseguras. Encontrar pessoas assim faz-nos ver que há luz ao fundo do túnel. Estas pessoas fazem-nos acreditar, essa palavra mágica capaz de nos resgatar da nuvem. Funcionam como um modelo a seguir, uma fonte inspiradora.

Não sei se amanhã ainda continuarei manter contacto com esta pessoa. Mas ainda assim valeu o hoje, aprendi uma enorme lição: há formas de levar a vida, que embora nos pareçam estranhas, são decerto mais saudáveis e maduras e é a minha que está errada.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Arte-terapia


Muitos terapeutas aconselham os seus pacientes a dar asas à sua criatividade como forma de terapia. Na verdade, toda a arte é uma forma de terapia. Apreciar algo belo, só por si, melhora o estado de espírito, cria bem estar. Mas fazer algo belo, faz ainda melhor: tem um efeito libertador.
Pegar num pincel e dar umas pinceladas numa tela, num instrumento musical e tocar algumas notas, num pedaço de barro e dar algumas formas, ainda que não saiam daí mais do que esboços, foram gerados pela nossa criatividade. São unicos, têm impressos o nosso cunho pessoal. É preciso copiar para fazer igual. Se trabalharmos melhor, no sentido de terminarmos aqueles esboços, o que temos sãos obra primas. Podem não ter sido criadas por um Mozart ou um Picasso, mas são tão preciosas quanto as suas. Se olharmos com atenção, transpomos para elas pedaços da nossa história, da nossa personalidade, dos nossos desejos. Exorcisamos os nossos medos, a nossa raiva, libertamos o nosso outro eu, o nosso génio escondido, o nosso poder, manifestamos o nosso amor, o nosso desagrado, a nossa frustração.
Assistimos ao nascimento de uma nova forma de terapia: a Arte-terapia, como co-adjuvante das terapias tradicionais que conhecemos. A depressão encontra assim outra forma de ser vencida. Um bom terapeuta, avaliando uma obra de alguém consegue desvendar parte da história não dita do seu paciente, se tiver sensibilidade para tal. Poderá também ajudar essa pessoa a perceber através da arte o porquê da sua depressão e como cura-la. Por exemplo, se uma pessoa persiste em pintar uma tela toda de negro, colocar cores alegres será uma forma de impôr ao seu espírito uma imagem positiva da vida.
A Arte-terapia é pois um tipo de psicoterapia como outro qualquer, que utiliza a expressão artística como instrumento para atingir os seus fins. Ela é principalmente eficaz quando a expressão verbal é insuficiente, quando os pacientes têm dificuldade em falar sobre o que sentem, facilitando assim a comunicação. Geralmente implica duas ou mais sessões semanais e implica do psicoterapeuta uma postura analítica. Recorre-se a simbologia a metáforas para dizer os "não-ditos", de forma a que o impacto seja atenuado. Dá-se-lhes sentido e consegue-se desta forma proceder a uma reparação.
Pintar, dançar, escrever, esculpir, etc, pode ajudar a vencer a depressão. Quer recorra a um atelier de Arte-terapia, quer o faça em privado, porque não tentar?

sábado, 3 de janeiro de 2009

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