quarta-feira, 15 de julho de 2009

Amigos Eternos e Efémeros


Hoje estive na festa de aniversário de um amigo recente onde me encontrei com alguns outros que conheci na mesma data e outras tantas pessoas que não conhecia.

Às tantas, dei comigo a conversar com uma desconhecida que era amiga do anfitrião à quase cinquenta anos. Apontou algumas outras pessoas presentes que estavam na mesma situação dela. Meio século! É uma vida. Lembrei-me dos meus amigos de infância e dos poucos que ainda mantenho. Lembrei-me também dos recentes e de todos aqueles que encontrei ao longo da vida e com os quais já não mantenho contacto. Fez-me pensar no que é que nos leva a manter alguns amigos durante toda a vida, enquanto nos afastamos de outros ou eles de nós.

Não é a distância geográfica, o nível de formação, a profissão que se exerce ou a situação familiar de cada um que define se uma relação de amizade se vai ou não prolongar. Existem amizades duradouras entre pessoas tão diferentes ou mesmo que moram em países distantes enquanto pessoas que vivem quase juntas e têm uma situação de vida muito semelhante não conseguem ser amigas durante muito tempo. Existem até pessoas que quando se conhecem parecem ter tanto em comum, que quase juram que a sua amizade será eterna e no entanto passados poucos anos deixam de se contactar. Não existe nenhum padrão, nenhuma referência que nos ajude a determinar a durabilidade das relações de amizade. O facto é que, a menos que vivamos sempre no mesmo lugar e estejamos em contacto apenas com o mesmo grupo de pessoas, todos nós passamos a vida a fazer amigos, dos quais apenas alguns mantemos.

A definição de amigo varia consoante a personalidade, a cultura, a maturidade e a experiência de cada um. Algumas pessoas vêm um amigo como um prolongamento de si próprio, enquanto outros como um apêndice, outros ainda como um complemento; talvez o que faça falhar algumas relações será a não aceitação pelo outro do papel que descobriu que desempenha perante o amigo. Uma relação para durar, qualquer que ela seja, exige a aceitação da mesma condição pelo outro, é claro que isto também se aplica à amizade. Não é provável que eu seja amigo de alguém que me vê como um prolongamento de si próprio, quando eu apenas o vejo como um apêndice ou complemento. A diferença de visões ou conceitos da amizade pode estar na origem do afastamento das pessoas.

A imaturidade pode também determinar a falência das relações: ser amigo é aceitar as diferenças, saber ouvir, perdoar, estar presente, dar liberdade, ensinar, partilhar. Não podemos pretender que o nosso amigo seja igual a nós, pense como nós ou tenha a mesma opinião. Ele tem o direito de ser diferente, tal como nós. O importante é que apesar disso esteja do nosso lado para nos apoiar, mesmo que pense de forma contrária à nossa, nos ajude a levantar quando, persistindo nos nossos erros, caímos. Temos que ter capacidade de perdoar pois todos nós erramos e temos o direito a uma segunda oportunidade. É importante também que ninguém se sinta aprisionado. Quando sentimos que alguém nos está a prender o nosso instinto é o de procurar liberdade. Por outro lado, transmitir os nossos conhecimentos e partilhar os nossos recursos de forma a ajudar o outro a ultrapassar os seus próprios obstáculos contribui para o seu crescimento e como tal intensifica a amizade. Tudo isto tem a ver com a maturidade do próprio indivíduo, que quanto maior é, mais salutares são as relações que estabelece. A relação pode não durar se um dos intervenientes trair os pressupostos que enunciei no início deste parágrafo.

Aquela máxima de "A friend in need is a friend indeed (um amigo necessitado é um amigo de verdade)" parece apenas referir-se a amigos por interesse. Um amigo de verdade é aquele que o é mesmo que o não possamos ajudar em nada, que o continuará a ser quando já não precise. Porém assiste-se muito a "amigos de ocasião", ou seja, determinadas pessoas que apenas são amigas enquanto se mantém determinada circunstância. Será que podemos chamar a essas pessoas amigas? Será que os amigos que o deixam de ser um dias são todos "amigos de ocasião"? Nem sempre. Muitas vezes a vida torna-nos tão diferentes que os nossos universos se tornam impossíveis de cruzar. O importante é que enquanto são amigos aproveitem ao máximo esse previlégio. Porque a amizade é uma das coisas mais importantes de que algum dia podemos usufruir. Se não se prolongar por algum motivo, que se prolongue ao menos na nossa memória. E vivam as amizades eternas, porque ambos os amigos descobriram o verdadeiro sentido da palavra "amizade".

sábado, 11 de julho de 2009

O "KISS"


Não, não é um beijo. KISS é o acrónimo de "Keep It Simple, Stupid" e "é um princípio geral que valoriza a simplicidade de projecto e defende que toda a complexidade desnecessária seja evitada. Serve como fórmula útil em diversas áreas como o desenvolvimento de software, a animação, a engenharia no geral e no planejamento estratégico e táctico. Também é aplicado na Literatura, na Música e nas Artes em geral. Este princípio teve a sua inspiração diretamente do princípio da Navalha de Occam e das máximas de Albert Einstein ("tudo deve ser feito da forma mais simples possível, mas não mais simples que isso") e de Antoine de Saint-Exupéry ("A perfeição é alcançada não quando não há mais nada para adicionar, mas quando não há mais nada que se possa retirar") (Wikipédia).

Simplificar pode ser a solução para muitos dos nossos problemas. Quantos de nós nos fartamos de queixar pela falta de tempo, pelo cansaço, pela falta de dinheiro, pela falta de amigos...?! E quantas vezes já olhamos bem a fundo para a nossa vida, analisando imparcialmente onde estamos a errar? Se calhar nunca, ou então sempre que o fazemos chegamos à conclusão de que não poderíamos ter feito melhor.

Vivemos na era do consumismo, do comodismo, do egoísmo; vivemos em função da maximização da qualidade de vida sem entendermos muito bem o que isso significa; não entendemos que muitas das coisas que temos são supérfluas, aprisionam-nos e exigem de nós muito mais do que o prazer ou benefício que nos dão em contrapartida.

Vou analisar aqui uma situção concreta: Paula e Mário, ambos advogados, pais de um filho adolescente, viviam numa casa de cinco assoalhadas, ar condicionado e música ambiente, uma televisão em cada assoalhada, com mais de cem canais, três casas de banho, janelas automáticas entre outras comodidades. Tinham a casa dos seus sonhos, num condomínio fechado, com piscina, três elevadores. Para pagar o empréstimo do banco e para manter a casa necessitavam de uma avultada quantia de dinheiro todos os meses. Para o efeito, começaram ambos a aceitar mais casos. O tempo era pouco e como tal tiveram que contratar uma empregada. Contudo isso ainda acresceu mais as despesas e tiveram que trabalhar durante o Sábado. Como prometeram ao filho umas férias em Bora Bora, começaram a trabalhar também ao Domingo.

Não passavam tempo quase nenhum em casa; estavam constantemente cansados e Mário começou a sofrer de hipertensão; o filho passava o dia ao computador e não estudava, estando em vias de reprovar nos exames. Paula tinha tudo o que sempre ambicionou, no entanto não se sentia feliz.

Certo dia chegou a casa, sentou-se no sofá, pegou no comando, ligou a televisão da sala e pela primeira vez num mês preparou-se para assistir a um filme. Apercebeu-se de que tinha tantas televisões, tantos canais, mas não tinha tempo de ver nenhum deles, o mesmo acontecendo com o marido e o filho, que preferia a internet. Levantou-se e deu um passeio pela casa. Há meses que não entrava ninguém no quarto de hóspedes, não tinham tempo para receber ninguém em casa. Olhou pela janela e viu a piscina onde já não punha os pés há meses. Havia sempre tantas contas a pagar, tanto trabalho a fazer... Uma casa assim dá muitas despesas. Então Paula deu-se conta de que estava a trabalhar para o boneco. Estava a trabalhar para financiar algo de que não podia usufruir; deu-se conta de que apesar de ter tudo o que sempre quis ter, não tinha o que verdadeiramente lhe interessava: passar tempo em família, estar com os amigos, divertir-se.

Foi então que, em conjunto com o marido e o filho tomaram uma decisão: mudar para uma casa mais pequena, na periferia. Não tinha nem metade das comodidades que aquela tinha, mas de que interessava tê-las se não podiam gozar delas? Dispensaram a empregada e Paula passou a assumir as tarefas da casa. Três assoalhadas mais pequenas eram suficientes para todos. Uma televisão na sala com um pacote mínimo e um sofá-cama que servia perfeitamente para transformar a sala em quarto de hóspedes caso houvesse algum. Não tinham música ambiente nem janelas automáticas, nem piscina, mas no final todos sentiram que valeu a pena a mudança.

A renda diminuiu, bem como os custos de electricidade, condomínio, entre outros. Isto fez com que tivessem que trabalhar muito menos e poder assim passar mais tempo uns com os outros; apenas uma televisão na sala contribuiu para aproximar a família; começou a haver tempo para conviver com os amigos, o que os alegrou imenso; no final ainda sobrou dinheiro para fazerem aquela viagem a Bora Bora que andavam à tempo a prometer ao filho.

Simplificar mudou a vida desta família. A adaptação foi difícil, ao princípio acharam que apenas iam ganhar desconforto, mas a verdade é que o nível de felicidade aumentou.

Complexidade gera complexidade e às tantas esta complexidade atrofia, aprisiona. Esquematizar a vida de forma simples torna os objectivos mais possíveis. Estabelecer como prioridade objectivos imateriais em vez dos materiais faz com que seja necessário muito menos esforço, faz com que os últimos percam importância face aos primeiros, o que contribui para o reforço de valores como a amizade, a família, o altruísmo, pois procurar a felicidade nas coisas simples é muito mais satisfatório e fácil de atingir do que nas mais complexas; ter muito é apenas satisfazer caprichos, quando nos basta tão pouco para termos o que realmente importa. Por isso, aproveite e KISS....

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Identidades Falsas


A maioria de nós nasce e morre transitando por esta vida como se de um palco se tratasse. Porque somos todos actores, não só porque representamos papéis, mas porque usamos máscaras que nos transformam naquilo que queremos ou aprendemos a ser.

Desde o momento em que nascemos que estamos sujeitos ao processo de socialização, que muitas vezes se inicia no acto de cortar o cordão umbilical. A partir daí são-nos ensinados valores, códigos de conduta e aplicados castigos a comportamentos considerados desviantes pela sociedade. Quando nascemos, a nossa mente está vazia. Começamos a enchê-la com o que temos ao nosso redor, aprendemos e apreendemos aquilo que nos facultam, que será o que vigora na sociedade e na época em que vivemos. Mais tarde, quando começamos a ter capacidades para agir por conta própria, fazêmo-lo nos limites daquilo que nos é permitido, que aprendemos como sendo certo ou errado e enraizamos fortemente na nossa consciência.

Aquilo que somos hoje, não é mais que massa moldada na mesma forma onde o foram todos os membros da sociedade em que vivemos: a língua que falamos, o vestuário que vestimos, as leis a que obedecemos, etc.. Consoante o lugar e o tempo assim esta moldagem é mais ou menos rígida, mas o facto é que nos tormamos não naquilo que verdadeiramente somos, mas naquilo que a sociedade espera que sejamos, sob pena de sermos considerados marginais e de nos serem aplicadas medidas de coacção que variam desde a simples reprovação a penas de prisão.

Representamos diariamente papéis: somos pais, filhos, professores, alunos, jardineiros, economistas, compradores, vendedores, velhos, jovens... Todos estes papéis têm características comuns e únicas que os tornam perfeitamente definidos: todos os pais se comportam de determinada forma que não se coaduna com o comportamento dos seus filhos, ou mesmo deles próprios enquanto filhos, o mesmo acontecendo com os alunos e professores, com os velhos e com os jovens. É esperado que se actue de acordo com o papel que se detem e normalmente sabemo-lo de cor, pois levamos a vida a aprender como o representar.

Mas mais do que aprender comportamentos, aprendemos o conceito do certo e do errado, do bonito e do feio, do bom e do mau, do rude e do elegante, etc.. Moldamos a nossa consciência de forma a tornar-se parte de uma muito maior, a da sociedade como um todo. Deixamos de poder ser apenas um indivíduo para passar a ser uma célula de um corpo único, do qual fazem parte outros seres humanos. O que seríamos se fossemos nós próprios? Ou melhor, o que é ser nós próprios? Será que em alguma circunstância estivemos livres da influência do que aprendemos?

Porém, todo o ser humano existe individualmente. Existe algo que ainda se mantém intacto dentro dele: a sua identidade. O que acontece é que na maioria das vezes está adormecida, foi chutada para o fundo do nosso ser e é tão constantemente empurrada para dentro pelo nosso consciente que nos esquecemos de qual ela é. Pensamos até que somos aquilo que aparentamos ser, enganamo-nos a nós mesmos. Muitas vezes a nossa verdadeira identidade é tão diferente daquela que ostentamos que se gera um conflito com consequências nefastas como depressões, doenças somáticas, desiquilíbrios emocionais e comportamentos considerados desadequados pelas normas sociais em vigor. É que geralmente o inconsciente tem mais força que o consciente e aquilo que empurramos para o dentro é repelido para fora com maior intensidade. Mas na medida em que não aprendemos a lidar com isso, nem sequer sabemos interpretar o que nos está a acontecer. Então recorremos a terapêutas, tomamos medicamentos, procuramos conselhos de amigos, etc, sempre na tentativa de repôr a normalidade, quando por vezes a normalidade que ambicionamos é construída com base numa identidade falsa. Recusamo-nos a deixar a máscara que vestimos, pois não sabemos viver sem ela. Por isso somos toda a vida actores, mesmo sem termos consciência disso. E dizem algumas pessoas que não têm veia artística!!