segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ser Humano

A humanidade, milhões de universos individuais a partilhar um universo em conjunto; somos almas, espíritos, ou apenas carne, depende das religiões, das experiências, das crenças... A verdade é que o ser humano é o mais desconcertante de todos os seres que a natureza criou.
Os meios de comunicação mostraram hoje uma criança chinesa a ser atropelada perante a indiferença e inércia dos observavam. Não foi apenas um, foram vários. O individualismo puro e simples, a mais egoísta essência; noutro canal, via-se Kadaffi a ser agredido e notícias da sua execução sumária sem prévio julgamento; noutro ainda, sobreviventes da guerra colonial a relatar os seus tempos de cativeiro enquanto prisioneiros de guerra. 
Que raio de ser humano é este que não tem compaixão pelo próximo, que não sente um mínimo de empatia pelo seu semelhante, que não consegue - ou não quer - domar o animal cheio de raiva que em si existe? 
Já não sei no que acreditar. Eu própria, não sei se a minha natureza não violenta terá sido aprendida ou se será inata. Afinal qual a verdadeira essência do ser humano?
Enquanto fazia zapping, vi um documentário sobre a  vida da Madre Teresa de Calcutá e uma entrevista a voluntários em Africa que ajudavam a combater a SIDA, ao mesmo tempo que alguém me relatava o extraordinário feito de um bombeiro que perdeu a vida ao tentar salvar um desconhecido de um fogo.

Bem, agora é que estou mesmo confusa. Quem é este ser que se sacrifica pelos outros, que perdoa e abraça, que ama incondicionalmente outro ser humano? Haverá várias categorias de humanidade?
No dia seguinte, assente nesta última hipótese, não conseguindo enquadrar-me a cem por cento em nenhuma categoria, mas apostando que pelo menos noventa por cento caberiam na dos "bondosos" (é assim que se calhar todos pensamos!...) me preparei para ir para o trabalho. A meio do caminho encontro um ex-presidiário, condenado por assassinar a mulher, depois de alguns anos a infligir-lhe maus tratos. Ao que parece não tinha mudado muito pois comentava-se que espancava a actual esposa.
No largo em frente havia largada de touros, onde alguns aventureiros os desafiavam perante os olhares divertidos dos que junto às grades observavam. Do meio de uma grupo que se apertava para conseguir ver melhor, uma mulher é empurrada para a frente e exposta ao touro, sem hipótese de fuga. Todos focaram os olhos nela, adivinhando-lhe um destino cruel. Mas nisto, enquanto o touro se aproximava, um homem saltou para a frente dela, sendo violentamente atacado pelo animal, salvando desta forma a senhora.
O curioso desta história é que este homem era o tal ex-presidiário que espancava a mulher. 
Que raio é o ser humano, tão complexo, tão perfeito, tão animal, tão mau, tão bom, tão indiferente? Não nos tentemos escapar, pois estamos todos entre estes extremos. Somos todos da mesma raça.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Desmame - 2ª Semana

Esta semana tem sido estranha. Agora estou a fazer Cymbalta dia sim dois dias não. Não quero ser "rápida" demais, para não demorar ainda mais tempo.
A ansiedade subiu, bem como a taquicardia. A ansiedade anda de mãos dadas com um medo difuso, inexprimível... O véu que me mantinha numa zona de segurança em relação à realidade está a desaparecer. É tão mais evidente a falibilidade do corpo, a inevitabilidade do seu perecimento e a sua exposição ao sofrimento... 
Agora estou cada vez mais acordada. Acordar é doloroso, principalmente para quem não age, apenas deseja. Dentro do meu cérebro a confusão instala-se aos poucos. Não me consigo apoiar nem nas religião, nem na filosofia, nem na psicologia. Preciso de  uma tese minha que satisfaça os meus critérios de solidez. Começo a acreditar que o ser humano não é um ser nobre por natureza, antes de uma bondade volátil e uma tendência nativa para destruir e complicar, em nome do progresso e da sabedoria, da fé ou simplesmente da vontade. Qual é a natureza do ser humano? Qual é ao certo a minha própria natureza? Nós não temos um anjinho e um diabinho sentados em cada ombro, nós somos esse anjinho e esse diabinho: somos o melhor e simultâneamente o pior que a natureza concebeu.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Desmame - 1ª Semana

Após dois anos a tomar Cymbalta e depois de tanto chatear a minha terapeuta por causa do sono durante o dia, ela resolveu alterar a medicação, substituindo aquele medicamento pelo Elontril.
Devido aos efeitos severos da interrupção abrupta do Cymbalta - quem já tomou sabe que basta nos esquecermos um dia para começarmos a ter tonturas, enjoos, etc - , terei que fazer um desmame suave enquanto inicio o Elontril.
Uma vez deixei de tomar os comprimidos, porque simplesmente andava farta. Comecei a sentir-me muito mal, todos  os dias e durante mais de um mês. Fiquei próximo do abismo e então resolvi retomar. Melhorei logo. Desta vez, tenho medo que aconteça algo semelhante, pelo que estou receosa quanto ao desmame. Decidi então postar aqui como me vou sentindo e quais os efeitos que a sua falta me causa.
Desde o início da semana que estou a fazer um dia sim dia não. Tentei fazer uma tabela com várias variantes tais como pulsação, nível de ansiedade, frequência dos enjoos e tonturas, mas desisti ao fim de dois dias, pois ou esqueço-me ou não tenho tempo ou não tenho paciência.
O Cymbalta funciona como uma espécie de "aconchego" para o cérebro. Dá-nos uma sensação de segurança e auto-confiança, ao mesmo tempo que que nos sentimos "protegidos" por uma espécie de véu que nos separa das coisas menos agradáveis; notei um afastamento emocional em relação a tudo, não quero dizer com isto que ficasse fria, sem emoções, mas sim que as conseguia controlar, ser mais objectiva e racional. Com o tumulto emocional apaziguado tudo se tornava mais fácil, passei a viver mais no aqui e agora e a não temer o futuro; tornei-me muito mais espontânea e elástica em relação à forma como lidava com as outras pessoas em diferentes situações.
Porém, estou farta de medicamentos. Estou farta dos seus efeitos secundários - não conheço nenhum que não os tenha - e de me sentir dependente. Não sou diferente dos drogados que necessitam de uma dose de droga para se sentirem melhor, embora o seu desejo seja poderem sentir-se bem sem ela. A diferença é que esta é um droga legal e prescrita por especialistas, aceite pela sociedade (não a cem por cento, como já escrevi noutro post, mas isso é outra história...). Por tudo isto, eis-me aqui a tentar deixar a minha droga actual para entrar noutra cujo comportamento ainda não conheço. Ouvi dizer que é mais fraca, e isso já me deixa satisfeita.
Ao fim da primeira semana, depois de passar os últimos dias com náuseas, sono e fome como se não comesse nem dormisse à três meses. A realidade parece mais crua e fria, o que assusta. A luz do meu quarto, que é a mesma de sempre, parece devolver em 4D o interior da divisão, obrigando-me a tomar atenção a detalhes antes ignorados ou sem relevância; os sons estão mais estridentes, o ruído incomoda mais.
Vou dando notícias, o que significa ao mesmo tempo consciencializar-me do que se está a passar, verbalizar algo ajuda a lembrar e convém não esquecer estas experiências. Ajuda a conhecermo-nos a nós mesmos...