sábado, 31 de dezembro de 2011

Desisti de jogar na lotaria

Esperar... Acreditar... Sonhar... Já apaguei há tempo estes verbos do meu dicionário. Aprendo depressa com o passado, crio anti-corpos suficientes para manter à distância todas as coisas pelas quais um dia esperei, acreditei, sonhei. A verdade é que criavam uma ilusão de felicidade, funcionavam como uma droga, iludindo a dureza do presente, proporcionando um bem-estar artificial. Não sou a favor das drogas. Então, para quê continuar a teimar no mesmo, dia após dia, frustração atrás de frustração? Dei comigo a chamar-me estúpida por estar a sustentar aquilo que me fazia sofrer.
Não tomei a decisão de o fazer. Aos poucos, as experiências da vida fizeram-no por mim. Não quero voltar a sofrer decepções, aliás, neste momento já estou decepcionada o bastante para notar algum incremento; não quero voltar a cair desamparada por ter sonhado alto, embora alto para mim seja pouco mais que o nível de sobrevivência; não quero viver continuamente na ansiedade de aguardar as mudanças, as pessoas, os momentos, que nunca chegam.
É claro que o que faz avançar a vida, o que lhe dá sentido é mesmo acreditar, esperar, sonhar... mas eu não consigo jogar todas as semanas na lotaria e ao fim de quarenta anos sem ganhar um prémio acreditar que irei algum dia ganhá-la. Por isso parei de jogar. Assim é com a vida: há um dia em que simplesmente deixamos de jogar...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Raiva

Para a maioria das pessoas o dia tem 24 horas; para mim tem 1440 minutos. Por que raio tenho que me sentir tão mal? Chega uma altura em que o que sinto é raiva. Raiva, porque a fase da auto-piedade já passou. Essa fase é dura, mas tem um certo romantismo. A raiva chega quando ele desaparece, quando se desce à terra, ao presente e nos confrontamos com a nudez e frieza dos factos; antecede uma organização qualquer, é uma fase de transição. Porém, não significa que esta "organização" seja sinónimo de harmonia. Nesta fase a paciência é coisa que não tem lugar, atribuímos as culpas a tudo o que nos rodeia, principalmente àqueles que nada fizeram para evitar que chegássemos a este ponto. 
Estou sozinha, mas disso eu sempre soube. O que dói aqui é assumir essa solidão, perceber que só posso contar comigo e nada mais. Por vezes a esperança não passa de uma tortura e chega de ser masoquista. Acreditar é um verbo que só a esperança sabe conjugar, não a razão. 
Hoje, no final de um dia de trabalho insuportável, onde a profissão "escrava" mais se enquadraria, eu só pedia: por favor, alguém me dê uma boa notícia!... Preciso de algo bom onde adormecer o pensamento e enfim ter um pouco de descanso.Mas não. Só uma fila interminável de trânsito por causa de obras de emergência que não foram feitas na devida altura, contornando caixotes do lixo a transbordar por causa das contenções nas despesas camarárias... a somar a isto tudo, a não resposta de todos os emails de pedido de ajuda que enviei nas duas semanas anteriores e o egoísmo da sociedade em que cada um apenas cuida do seu quintal - ou nem isso. Por todo o lado só vejo muros, erguidos sob pretextos como a falta de tempo ou dinheiro. Existe uma irritante padronização dos valores, uma incontornável regulação das vidas e uma estúpida e incontestada aderência das pessoas; vejo todos acorrentados a leis, a futilidades, à manipulação e poder dos líderes e os pés ao próprio nariz. Possível estar feliz? Só quem diz amém ao sistema, quem desvia as suas atenções para causas onde não seja requisito raciocinar. Os outros, sentem raiva.
Mas a minha é mais íntima, empolgada claro por todo o cenário que me rodeia. Não quero mais ser uma cobaia voluntária e pagante nas mãos de médicos, não posso sequer ser cobaia de mim própria, pois no dia seguinte tenho que conseguir levantar-me e ir trabalhar e fingir que está tudo bem, pois estar bem é uma condição exigida para manter o emprego. Que raio fazer? Continuar a sentir tonturas, náuseas, depressão? Pois, que remédio! As opções que se me oferecem não são muitas...
Só posso encontrar escape na raiva, esta raiva que é uma fase transitória, porém construtora de um caminho que não sei onde irá dar e, muito sinceramente tenho medo de saber.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ansiedade é uma doença moderna?

Primeiro, não podemos dizer que a ansiedade é uma doença, é antes uma reacção instintiva natural. Contudo, transforma-se em doença se for exagerada quer na adequação à causa quer na sua duração.
O ser humano tem o seu timing para tudo: para dormir, comer, relaxar, fazer exercício, etc.. E é o corpo quem decide! Mas hoje em dia relegamos o corpo para segundo plano, exigimos que seja ele a adaptar-se ao que racionalmente decidimos. As responsabilidades, o emprego, os horários dos transportes e o omnipresente relógio impõem um ritmo artificial à nossa biologia. O que acontece é que o corpo não gosta! Ou melhor, não teve - nem terá, na sua breve existência - tempo para adaptar aos tempos modernos aquilo que a natureza levou milhares de anos a consolidar. Esta imposição é encarada de certa forma como uma ameaça, desencadeando naturalmente ansiedade; porém, o seu prolongamento transforma-a em patologia, a menos que consigamos dar ouvidos ao nosso corpo. 
Por esta razão, e atendendo ao acelerado ritmo dos tempos de agora em oposição aos de antigamente, muitas pessoas consideram a ansiedade uma doença dos tempos modernos. É claro que a ansiedade patológica sempre existiu, mas o número de casos não se compara e parecem continuar a aumentar exponencialmente.
Não somos super-pessoas, somos apenas pessoas. Convém não nos esquecermos disso.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quem nos ouve?

Não é preciso chegar a notícia da jovem que se suicidou após ter enviado 144 pedidos de ajuda numa rede social para nos darmos conta de que vivemos numa bolha, intocáveis, escondidos por detrás das tecnologias, disfarçados com um nickname, num mundo virtual demais para ser compatível com a biologia de que somos feitos. Fomos nós que quisemos. Fomos nós, cada um de nós que pediu, porque é mais fácil, mais rápido, mais cómodo. Principalmente mais cómodo. 
Enquanto vemos os outros como simples nicknames, sem rosto, sem corpo, sem alma, não podemos sentir empatia, a intensidade das emoções é moderada por toda a tecnologia que permeia entre os intervenientes. O mundo virtual afasta-nos da realidade, até porque a maioria das pessoas não se dá a conhecer. Então temos quinhentos amigos no facebook, no twitter, no msn, etc, mas ninguém nos ouve. Porque ninguém nos vê como seres humanos mas sim como avatares. Como se a vida fosse um filme que se desenrola perante a nossa inactividade, os problemas são argumentos do mesmo e a vida, tal como ela é, é mera representação. 
Será que alguém acreditou naquela rapariga? Será que realmente lhe deram importância? Os amigos que ela julgava que tinha, não passavam de números.
Dá vontade de mandar um pontapé a toda esta tecnologia virtual e voltar ao básico, àquilo que é compatível com a nossa humanidade. Somos parte da natureza, tal como as plantas, os animais, as pedras, a espuma do mar... mas insistimos em nos afastar do que é constituído da mesma matéria-prima que nós, quer o façamos fisicamente, quer virtualizando as nossas vidas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Desmame - 3ª Semana

Esta semana tem sido muito difícil. Estou a deixar vários dias entre cada toma e já me apercebi que são dias a mais. O Elontril parece não estar a contrabalançar a falta do Cymbalta. Tenho tido náusias, mal estar, tonturas e uma sensação constante de fraqueza, como se estivesse prestes a desmaiar de fome. Claro que fome não é de certeza, como como habitualmente. 
O pior tem sido ter que trabalhar neste estado e fingir que está tudo bem. Para os colegas mais perspicazes, "devo ter comido qualquer coisa estragada!". Nestas alturas todas as pessoas me parecem feitas de gelo, não que ache que deviam ter pena de mim, nem pensar, mas porque penso "por que raio se hão-de importar comigo? Sou apenas uma em sete mil milhões!". Quando relativizo assim compreendo que não sou o centro do universo. O meu mundo interior é só meu, está limitado pela pele do meu corpo; então e que tal limitar também o meu comportamento em conformidade?
Vivemos numa sociedade de aparências, onde se valoriza a saúde física, mental e emocional. São estas as características-modelo que ambicionamos possuir, logo, quando não estamos bem fazemos os possíveis para não o deixar transparecer. Aprendemos a representar e com o tempo tornamos-nos excelentes actores.
Tenho consciência de que sou uma péssima actriz, talvez porque durante demasiado tempo julguei que o correcto seria demonstrarmos abertamente o que sentíamos. Percebi mais tarde que quanto mais o fazia mais cultivava a auto-piedade e mais me expunha perante terceiros que, verdade seja dita, se estavam a lixar para as "pieguices" dos colegas de trabalho.
Assim, em dias como estes últimos, levanto a cabeça, caminho em frente, forço um sorriso que os músculos dos olhos não conseguem acompanhar e finjo que está tudo bem, até para mim mesma.
Mas não está. A cada passo que dou parece que vou cair, mexer os olhos provoca-me náuseas e falar e sorrir parece tirado a ferros. Malditos medicamentos, que até para me livrar deles tenho que sofrer...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ser Humano

A humanidade, milhões de universos individuais a partilhar um universo em conjunto; somos almas, espíritos, ou apenas carne, depende das religiões, das experiências, das crenças... A verdade é que o ser humano é o mais desconcertante de todos os seres que a natureza criou.
Os meios de comunicação mostraram hoje uma criança chinesa a ser atropelada perante a indiferença e inércia dos observavam. Não foi apenas um, foram vários. O individualismo puro e simples, a mais egoísta essência; noutro canal, via-se Kadaffi a ser agredido e notícias da sua execução sumária sem prévio julgamento; noutro ainda, sobreviventes da guerra colonial a relatar os seus tempos de cativeiro enquanto prisioneiros de guerra. 
Que raio de ser humano é este que não tem compaixão pelo próximo, que não sente um mínimo de empatia pelo seu semelhante, que não consegue - ou não quer - domar o animal cheio de raiva que em si existe? 
Já não sei no que acreditar. Eu própria, não sei se a minha natureza não violenta terá sido aprendida ou se será inata. Afinal qual a verdadeira essência do ser humano?
Enquanto fazia zapping, vi um documentário sobre a  vida da Madre Teresa de Calcutá e uma entrevista a voluntários em Africa que ajudavam a combater a SIDA, ao mesmo tempo que alguém me relatava o extraordinário feito de um bombeiro que perdeu a vida ao tentar salvar um desconhecido de um fogo.

Bem, agora é que estou mesmo confusa. Quem é este ser que se sacrifica pelos outros, que perdoa e abraça, que ama incondicionalmente outro ser humano? Haverá várias categorias de humanidade?
No dia seguinte, assente nesta última hipótese, não conseguindo enquadrar-me a cem por cento em nenhuma categoria, mas apostando que pelo menos noventa por cento caberiam na dos "bondosos" (é assim que se calhar todos pensamos!...) me preparei para ir para o trabalho. A meio do caminho encontro um ex-presidiário, condenado por assassinar a mulher, depois de alguns anos a infligir-lhe maus tratos. Ao que parece não tinha mudado muito pois comentava-se que espancava a actual esposa.
No largo em frente havia largada de touros, onde alguns aventureiros os desafiavam perante os olhares divertidos dos que junto às grades observavam. Do meio de uma grupo que se apertava para conseguir ver melhor, uma mulher é empurrada para a frente e exposta ao touro, sem hipótese de fuga. Todos focaram os olhos nela, adivinhando-lhe um destino cruel. Mas nisto, enquanto o touro se aproximava, um homem saltou para a frente dela, sendo violentamente atacado pelo animal, salvando desta forma a senhora.
O curioso desta história é que este homem era o tal ex-presidiário que espancava a mulher. 
Que raio é o ser humano, tão complexo, tão perfeito, tão animal, tão mau, tão bom, tão indiferente? Não nos tentemos escapar, pois estamos todos entre estes extremos. Somos todos da mesma raça.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Desmame - 2ª Semana

Esta semana tem sido estranha. Agora estou a fazer Cymbalta dia sim dois dias não. Não quero ser "rápida" demais, para não demorar ainda mais tempo.
A ansiedade subiu, bem como a taquicardia. A ansiedade anda de mãos dadas com um medo difuso, inexprimível... O véu que me mantinha numa zona de segurança em relação à realidade está a desaparecer. É tão mais evidente a falibilidade do corpo, a inevitabilidade do seu perecimento e a sua exposição ao sofrimento... 
Agora estou cada vez mais acordada. Acordar é doloroso, principalmente para quem não age, apenas deseja. Dentro do meu cérebro a confusão instala-se aos poucos. Não me consigo apoiar nem nas religião, nem na filosofia, nem na psicologia. Preciso de  uma tese minha que satisfaça os meus critérios de solidez. Começo a acreditar que o ser humano não é um ser nobre por natureza, antes de uma bondade volátil e uma tendência nativa para destruir e complicar, em nome do progresso e da sabedoria, da fé ou simplesmente da vontade. Qual é a natureza do ser humano? Qual é ao certo a minha própria natureza? Nós não temos um anjinho e um diabinho sentados em cada ombro, nós somos esse anjinho e esse diabinho: somos o melhor e simultâneamente o pior que a natureza concebeu.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Desmame - 1ª Semana

Após dois anos a tomar Cymbalta e depois de tanto chatear a minha terapeuta por causa do sono durante o dia, ela resolveu alterar a medicação, substituindo aquele medicamento pelo Elontril.
Devido aos efeitos severos da interrupção abrupta do Cymbalta - quem já tomou sabe que basta nos esquecermos um dia para começarmos a ter tonturas, enjoos, etc - , terei que fazer um desmame suave enquanto inicio o Elontril.
Uma vez deixei de tomar os comprimidos, porque simplesmente andava farta. Comecei a sentir-me muito mal, todos  os dias e durante mais de um mês. Fiquei próximo do abismo e então resolvi retomar. Melhorei logo. Desta vez, tenho medo que aconteça algo semelhante, pelo que estou receosa quanto ao desmame. Decidi então postar aqui como me vou sentindo e quais os efeitos que a sua falta me causa.
Desde o início da semana que estou a fazer um dia sim dia não. Tentei fazer uma tabela com várias variantes tais como pulsação, nível de ansiedade, frequência dos enjoos e tonturas, mas desisti ao fim de dois dias, pois ou esqueço-me ou não tenho tempo ou não tenho paciência.
O Cymbalta funciona como uma espécie de "aconchego" para o cérebro. Dá-nos uma sensação de segurança e auto-confiança, ao mesmo tempo que que nos sentimos "protegidos" por uma espécie de véu que nos separa das coisas menos agradáveis; notei um afastamento emocional em relação a tudo, não quero dizer com isto que ficasse fria, sem emoções, mas sim que as conseguia controlar, ser mais objectiva e racional. Com o tumulto emocional apaziguado tudo se tornava mais fácil, passei a viver mais no aqui e agora e a não temer o futuro; tornei-me muito mais espontânea e elástica em relação à forma como lidava com as outras pessoas em diferentes situações.
Porém, estou farta de medicamentos. Estou farta dos seus efeitos secundários - não conheço nenhum que não os tenha - e de me sentir dependente. Não sou diferente dos drogados que necessitam de uma dose de droga para se sentirem melhor, embora o seu desejo seja poderem sentir-se bem sem ela. A diferença é que esta é um droga legal e prescrita por especialistas, aceite pela sociedade (não a cem por cento, como já escrevi noutro post, mas isso é outra história...). Por tudo isto, eis-me aqui a tentar deixar a minha droga actual para entrar noutra cujo comportamento ainda não conheço. Ouvi dizer que é mais fraca, e isso já me deixa satisfeita.
Ao fim da primeira semana, depois de passar os últimos dias com náuseas, sono e fome como se não comesse nem dormisse à três meses. A realidade parece mais crua e fria, o que assusta. A luz do meu quarto, que é a mesma de sempre, parece devolver em 4D o interior da divisão, obrigando-me a tomar atenção a detalhes antes ignorados ou sem relevância; os sons estão mais estridentes, o ruído incomoda mais.
Vou dando notícias, o que significa ao mesmo tempo consciencializar-me do que se está a passar, verbalizar algo ajuda a lembrar e convém não esquecer estas experiências. Ajuda a conhecermo-nos a nós mesmos...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Medo e ansiedade - principais diferenças

Se bem que correlacionados, e produzindo basicamente os mesmos sintomas perante um perigo real ou potencial, a ansiedade e o medo não são bem a mesma coisa. A principal diferença está na caracterização do perigo. Enquanto no medo ele é bem definido, já o não é no caso da ansiedade. A ameaça é algo difuso, sem contornos definidos, é mais "um sentimento de ameaça"; o medo por sua vez é uma emoção básica, uma resposta. Para se estar perante a ansiedade é necessário estar presente a imaginação. Sem ela este sentimento não existiria, pelo menos nunca atingiria os graus que se verificam no ser humano. 
É importante conhecer a distinção para melhor diagnosticar e tratar. Pensamento positivo, aumentar auto-confiança, poderão ajudar a diminuir a ansiedade; aprender a lutar contra o perigo que se anuncia pode ajudar a lidar com o medo. Diferentes abordagens, diferentes estratégias de acção.

domingo, 10 de julho de 2011

Ansiedade extrema - vivendo o futuro

A crise de ansiedade é uma experiência de terror extremo. O seu desencadeamento está ligado ao medo, desenvolvendo-se até ao seu máximo numa questão de pouquíssimos minutos, mas também se pode manifestar de forma espontânea (ataques de pânico). Os sintomas principais foram já referidos no post anterior.
Um aspecto extremamente importante a saber sobre o medo é que ele se refere sempre ao futuro. Não há medo no presente, ele é sempre antecipatório de algo ruim que poderá acontecer. Trata-se de representações mentais de potenciais acontecimentos aos quais se associam de imediato emoções intensas, muitas vezes até desajustadas. Estes pensamentos desencadeiam reacções físicas proporcionais, como se estivesse a acontecer naquele momento.
O pânico é o nível mais alto da ansiedade. Um artigo da Universidade de Londres publicado na revista "Science" revela que "durante um episódio de extrema ansiedade e pânico, a actividade do cérebro move.se do córtex pré-frontal para o periaquedutal, ou seja, da parte da frente para a parte do cérebro intermediário. Há um fluxo maior de sangue no sector do cérebro que está mais activo. A parte da frente do cérebro abriga a sua capacidade de raciocínio e tomada de decisão. Já o cérebro intermediário é onde se localizam os mecanismos de sobrevivência, como a luta ou fuga" (in http://www.sempanico.com/).
No auge da ansiedade ficam  bloqueadas as funções ligadas ao raciocínio, o que limita ainda mais a compreensão do que está acontecendo. Há uma desadequação de emoções em relação ao perigo real ou potencial, pois que este ainda não se verificou, trata-se de uma antecipação mental de um (possível) momento futuro. Parece contudo indissociável do ser humano o viver em função do futuro ou do passado e não do presente (atenção que daqui a um segundo é futuro, embora muito próximo, nunca é presente). A imaginação é o segundo factor que permite gerar ansiedade: ela não se verificaria se não "visualizassemos" em nossa mente o que achamos que seguramente irá acontecer, acrescentando-lhe a carga emocional correspondente.

Imaginar é sentir, antecipar é sofrer antes do tempo. Viver o presente com as emoções adequadas aos acontecimentos presentes pode ser um remédio para nos livrarmos dos ataques de pânico e ansiedade extrema.




segunda-feira, 4 de julho de 2011

Medo extremo - Breve estudo do pânico

SINTOMAS DE UM ATAQUE DE PÂNICO
- Vertigens ou sensação de desmaio
- Tonturas, náuseas ou desconforto abdominal
- Calafrios ou ondas de calor
- Medo de morrer
- Medo de perder o controlo e enlouquecer
- Palpitações ou ritmo cardíaco acelerado
- Dor ou desconforto no peito
- Sensações de falta de ar ou afrontamentos
- Boca seca e sede
- Sentimento de confusão associado a pensamentos rápidos
- Contracções, tensões e espasmos musculares
- Dor de cabeça
- Sensação de irrealidade ou ideia de estar distante de si mesmo
- Terror, traduzido na sensação de que algo horrível está prestes a acontecer
(Retirado do site http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/actualidade/medo-levado-ao-extremo)

Na verdade, em qualquer definição de pânico, os sintomas associados são mais ou menos os mesmos. Porém, lê-los ou até associa-los a algo que já sentimos está longe de perceber o que realmente se está a passar.

Sabemos (ou imaginamos) que a morte é uma sequência de disfuncionamentos físicos do corpo, culminando com a impossibilidade do espírito, qualquer que seja o seu entendimento, viver dentro dele. Um período de terror atroz separa o corpo do espírito para sempre e o impele para o desconhecido, numa forma de matéria desconhecida.

Por vezes o medo de algo é tão grande, que leva ao pânico. O corpo e a mente descontrolam-se, a aflição toma o lugar da reacção própria do medo normal. O espírito, preso a um corpo físico e falível, susceptível a todas as dores, em vez de parar, alimenta o medo. O terror é permanente.

Num ataque de pânico experimentam-se alguns destes sentimentos, apesar de não haver perigo que justifique tal. Entra-se numa espiral de medo, pois imediatamente estes sintomas são associados à morte. O pânico gera um sofrimento esmagador, é bem real para quem o vive.

Numa  ataque de pânico, a confusão é tal que as ideias negativas se colam como um iman  ao próprio processo de medo. A incapacidade de racionalizar, de relativizar acontece porque algo debilitou o sistema "avaliador" da dimensão e eminência do perigo tornando-o demasiado "embriagado" para vir em nosso auxílio.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

País deprimido

O cidadão comum está apreensivo. Não sabe o que o espera, apenas sabe que terá que sofrer um bom bocado em nome das promessas dos governantes de que as medidas de austeridade vão inverter o sentido da crise. Mas, farto de apertar o cinto, de acreditar em mentiras e de assistir a cada dia que passa à degradação da economia e da sociedade, ele passou a desconfiar de tudo e de todos. Principalmente do futuro.

No imediato aumenta o desemprego, diminui o poder de compra, diminui a qualidade no ensino, na saúde, na justiça; não admira que a depressão bata à porta e atire para os consultórios de psiquiatras e psicólogos novos clientes mas mais pobres. Não há dinheiro nem para as consultas! A primeira, ainda vá que não vá, mas as seguintes.... E os medicamentos? A escolha entre pôr comida na boca dos filhos ou pagar a prestação da casa leva a que a uma dada altura eles fiquem na farmácia, depois de irem ao balcão, as caixas serem inspeccionadas e serem rejeitados com qualquer desculpa esfarrapada.
E assim o cidadão comum começa a andar irritado, aborrecido, melancólico. Por vezes enverga por caminhos um tanto ou quanto obscuros na tentativa de fazer atalhos para o seu objectivo final, outras procura esvaziar a cabeça virando a atenção para a folia e o futebol, outras ainda fica em casa indeciso entre o atirar-se da janela ou o emigrar para outra nação.
Pergunto se este cidadão é capaz de aumentar a sua produção, de forma a superar o défice. Espera-se dele o levantar Portugal do chão. Mas, como pode alguém levantar alguma coisa, se está a ser constantemente obrigado a se baixar?
Um país deprimido não vai a lado nenhum. A continuar assim, é melhor o estado tomar como prioridade a encomenda de altas quantidades de Prozac, não vá toda a gente começar andar de cabeça tão baixa que nem se aperceba que mudamos de governo...

domingo, 5 de junho de 2011

Despertar para a realidade

"Não me lembro quem foi
mas me convenceu
O mundo afinal é de todos,
não é só meu.
Foi um grito da alma,
foi um peso no olhar
Foi orgulho ferido
duro soluçar.
Deitei no chão frio
pra esfriar o coração,
mudei de nome e de morada
estava sem solução.
Me olhei no espelho e vi pedaços
feito vidro que eu quebrei
mas eram correntes, eram barreiras
que à minha volta eu criei
Foi duro, foi desespero,
acordar, ver meu espaço
ver que o mundo é de todos
e só nos cabe um pedaço
e agora não reclamo,
por fazer parte de um todo.
Pois por viver na realidade
sou feliz de qualquer modo..."
Anónimo

sábado, 2 de abril de 2011

Crise - Depressão Colectiva

A crise que Portugal vive (e o mundo), a crescente consciencialização por parte da população da prepotência dos líderes e seus amigos, o assalto aos bolsos dos cidadãos sem que ninguém saiba para quê, quando a única coisa onde vemos o governo aplicar esse dinheiro é nos megalómanos salários de alguns que pouco fazem, em carros de luxo, submarinos, TGVs e outros projectos que tais, faz com que o cidadão comum se veja numa situação tão precária que perdeu a confiança no futuro, não vê alternativas para sair da situação, enfim, anteveja cenários negros para os próximos tempos. Podemos dizer que a população portuguesa - falo da portuguesa porque é a que conheço melhor, mas muitos países haverão na mesma situação - se encontra numa Depressão Colectiva.

Depressão Colectiva, que é mais que a soma das depressões individuais de cada um de nós, é algo que tem unidade por si próprio, pois mesmo consegue-se ver, cheirar, sentir. Basta comparar-mos o sentimento global das pessoas de há dez anos com o das de agora. Aquilo que sentem no seu conjunto preenche os requisitos da "Depressão". É claro que isto tem consequências no nível de felicidade, auto-estima e perspectivas futuras. Se se vê à frente um futuro tão negro, como se pode andar por aí sorrindo hoje e fazendo planos para o amanhã? Os únicos planos que vemos as famílias fazerem é estabelecerem estratégias para reduzir ainda mais os custos, já que a diminuição dos ordenados e o desemprego não lhes permite pensar em aumentar as receitas. Mas reduzir os custos como? Quantos não entregaram já as suas casas ao banco, quantos estudantes não desistiram de estudar, quantos não deixam acentuar as doenças por falta de dinheiro para medicamentos, ou  mesmo para ir ao médico?

Penso que o que resta é uma crescente revolta interior, que, se se chegar a exteriorizar vai encher o país de manifestações, greves, revoluções que, apesar de ajudarem a descomprimir não nos dão pão para a boca. Tirar quem está no governo e por lá outros? Vai dar no mesmo, são todos farinha do mesmo saco, e prova disso são os níveis alarmantes das abstenções - assunto ao qual todos os políticos taparam os ouvidos, pois a todos dizia respeito.

Vamos esperar mais uns dias e arrastar-nos mais um pouco nesta "Depressão Colectiva" que apenas atinge quem não tem poder.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Curso de Autismo

"Caro Sr jornalista da TV Utopia,

Antes de mais deixe-me agradecer o prezado convite para responder à sua entrevista, embora que de forma indirecta, pois o tempo escasseia. Mas é para isso mesmo que existem os emails.

Como sabe, sou proprietário e director de uma escola de formação há meia dúzia de anos. A ideia surgiu quando fiquei desempregado e, aos cinquenta as hipóteses de encontrar um novo emprego eram quase nulas. Foi então que apresentei um projecto ao Centro de Emprego, ao abrigo de um programa de incentivo à criação do próprio emprego e recebi de uma só vez o subsídio de desemprego a que tinha direito. Pesquisei o mercado, procurando nichos pouco explorados e pareceu-me bem apostar nos Cursos de Personalidade. Criei o "Curso de Autista" e comecei a publicitá-lo. De imediato choveram telefonemas e emails de interessados pedindo informações. Fiquei bastante satisfeito durante os primeiros meses.

Respondendo mais concretamente à sua pergunta sobre o que era ensinado: trata-se de um curso de formação da personalidade. A maioria das pessoas está insatisfeita com a sua maneira de ser e têm intenção de mudar. Por isso são tão procurados os livros e cursos que ajudam a ter uma melhor relação consigo próprios e a desenvolver a auto-estima. Pensei em enveredar por essa área, contudo o mercado está demasiado saturado de ofertas. Eu queria algo mais inovador, algo que fosse ao encontro da sociedade moderna. Já tinha ouvido falar nos Cursos de Autista e apostei nisso.

As pessoas não querem comunicar. Querem passivamente ser compreendidas, mas não estão dispostas a emanar de si qualquer mensagem. Procuram viver num mundo interior, fechado para o exterior, com interacções mínimas com este, que não compreendem nem procuram compreender. É aqui que eu entro. Se é isto que procuram, é a consegui-lo que eu as ensino.

Se é fácil? Não é o mais difícil de ensinar. Nada melhor para assimilar uma aula que uma turma motivada. Ensino-lhes como usar auscultadores e música alta para se abstraírem de tudo ao seu redor, em como a forma como se usam as palavras, abusando de neologismos, palavras caras e outras cenas que tais, pode tornar as mensagens de tal forma encriptadas que se torna impossível entender pelo interlocutor. Ensino-lhes ainda como não compreender os outros. Esta é uma coisa muito simples, embora não pareça: basta que se cultive uma outra linguagem que apenas o próprio conhece e se ignore por completo aquela que é usual entre aqueles que nos rodeiam. Mas há um aspecto muito importante a ter em atenção neste ponto: estou a falar de TODO o tipo de linguagem, não só a verbal, também a corporal e mimética. Desta forma, atingem-se dois objectivos de uma só vez: não só não se é entendido, como também não se entende os outros.

O autismo não é só isto, a impossibilidade de comunicar, interagir com o mundo exterior não se limita a deformações na linguagem, qualquer que seja o seu tipo. Há que viver no seu próprio mundo, onde não entra mais ninguém. E o quê melhor para o conseguir que inventa-lo ou refugiar-se num alternativo que encontre desocupado por aí? Há-os muitos, desde os provocados por drogas aos que se regem por valores anti-sociais.

Se a crise que Portugal vive está a afectar a minha escola? Não, não sinto isso. Tem havido uma redução de formandos nos últimos anos, mas não creio que seja da crise, até porque os cursos em questão são reconhecidos pelo Ministério da Educação e financiados pela União Europeia e dão acesso a inúmeras profissões, principalmente dentro da classe política, apetecível a qualquer um pelo poder e  recompensas financeiras avantajadas a que têm acesso. O problema aqui é outro: o problema é que parece que já toda a gente sabe como ficar autista - e não estou a falar em tomar vacinas contra a gripe A - e como tal já não sentem necessidade de frequentar os meus cursos. A sociedade já os formou e eles aprendem depressa, para mal dos meus pecados. Tenho alunos com os quais é impossível comunicar. Não atingiram já estes o grau mais elevado de formação que posso chegar a atribuir?

Tenho também alguma dificuldade em contratar formadores. No início eram os governantes e membros das elites - alguns dos mais ilustres tiraram aqui o diploma! - a desempenhar esse papel. Agora estão demasiado ocupados ou incomunicáveis para que se apercebam que precisamos deles. Por isso recorremos a políticos da oposição.

Se me é permitido gostaria de fazer um apelo: se aspira a ser rico sem trabalhar muito, poderoso e imune à lei e viver à custa daqueles que se esforçam por ganhar o pão de cada dia, não hesite em inscrever-se. Lembre-se de que tem apoio do Estado! Venha crescer connosco e fixe os olhos em quem está no topo agora: eles também frequentaram um Curso de Autismo e passaram com distinção!"

Nota: este texto é unicamente humor negro, gostaria de explicar que tenho o maior carinho e compreensão para com as pessoas autistas e gostaria muito de poder ajuda-las, a elas e seus familiares, a eliminar ou contornar o problema.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ansiedade e conflito emocional subjacente

Nem sempre a ansiedade é uma resposta de carácter adaptativo. Quando não causado por um desiquilibrio hormonal (ex. hipertiroidismo) ou alguma anormalidade química, quando não se consegue identificar a causa primária, pode significar a consequência de um conflito interno. Designa-se conflito o estado psicológico decorrente da situação em que a pessoa é motivada, ao mesmo tempo, para dois comportamentos incompatíveis. É necessário pois fazer uma escolha, tomar uma decisão a favor de apenas um deles, o que não é fácil. Aqui, a razão não é grande ajuda, se se tratar de assuntos pessoais, onde a emoção desajusta a balança da objectividade. Sabe-se também de antemão que a frustração se seguirá ao bloqueio da satisfação do comportamento não escolhido.
Normalmente o que está em jogo é o que se deve em oposição ao que se quer. Quer sejam ditadas pela sociedade, pela religião, pela lei, pela moral ou pelos costumes, os valores que o indivíduo considera correctos e portanto deve seguir, são impostos do exterior; porém, o que ele "quer", "gosta" ou que efectivamente satisfaria as suas reais necessidades não são os mesmos. A obrigatoriedade e/ou emergência de uma escolha, associada ao medo do sofrimento causado pelo desvio dos valores aceites, e a frustração de um desejo insatisfeito, é fonte de ansiedade. Não há aqui uma tentativa de adaptação não conseguida, mas unicamente um stress patológico derivado da luta interior, muitas vezes inconsciente, entre a razão e o coração.